Comitê Mensal de Investimentos: setembro de 2026

Comitê Mensal de Investimentos

Comitê de Setembro de 2026: juros globais mais altos por mais tempo e um Brasil preso ao próprio calendário

A leitura completa do mês, classe por classe, com a matriz de convicção, os cenários para os próximos seis a doze meses e o que isso muda, ou não muda, em uma carteira diversificada.

Por Sérgio Ferreirinha, CFP, sócio da Ocre CapitalMês de referência: setembro de 2026Dados até 02/09/2026Leitura: cerca de 25 minutos

Escrevo este material uma vez por mês para responder a uma pergunta que ouço com frequência nas reuniões: o que mudou de verdade? Não é um relatório de notícias, nem uma lista de palpites sobre o próximo movimento do mercado. É o registro de como leio o cenário, quais riscos estou monitorando, onde vejo prêmio suficiente para justificar risco e, principalmente, onde a melhor decisão continua sendo não fazer nada.

Ele nasce separado da carta de acompanhamento que cada cliente recebe com a performance da própria carteira. Aqui não olho para nenhum portfólio específico. Olho para o ambiente. Depois, a conversa individual traduz esse ambiente para os objetivos, o horizonte e o perfil de cada um, que é justamente como funciona o atendimento que faço.

Publico este material aberto por uma razão simples: acho que o investidor pessoa física merece ver o mesmo raciocínio que orienta as carteiras que acompanho, e não apenas a conclusão. Se você é novo por aqui, comece por aqui.

Como leio números neste material. Trabalho com probabilidades, não com previsões. Sempre que escrevo “tende a”, “no cenário-base” ou “aumenta a probabilidade”, é porque estou descrevendo o desfecho que considero mais provável, e não o único possível. Nenhuma linha aqui é promessa de rentabilidade, e nada disso é recomendação individual de compra ou venda.

1. Resumo executivo

O que mudou no mês. A mudança mais relevante de agosto não veio de um dado, veio de um preço. Os juros longos americanos subiram e permaneceram altos mesmo depois de o Tesouro dos Estados Unidos anunciar a ampliação das recompras de títulos de 10 e 30 anos. A taxa de 30 anos superou 5,30% no mês, patamar que não era visto há cerca de vinte anos. O anúncio derrubou a taxa por menos de um dia, e o efeito se dissipou em seguida. Para mim, esse é o fato do mês: o mercado está dizendo que o problema não é técnico, é estrutural.

O que permaneceu igual. Quase tudo o mais. A atividade americana segue resiliente com sinais mistos, a inflação segue acima da meta, os lucros das empresas ligadas a tecnologia seguem surpreendendo para cima e a bolsa americana seguiu renovando máximas. No Brasil, o mês trouxe poucas alterações de cenário e reforçou a mesma dependência de sempre: fiscal, eleição e desaceleração da atividade.

O principal tema. A formação de um regime de juros longos estruturalmente mais altos no mundo desenvolvido. Três forças o alimentam ao mesmo tempo: déficits fiscais persistentes, necessidade recorrente de rolar volumes enormes de dívida e uma demanda por capital que cresceu muito rápido, puxada pelos investimentos em inteligência artificial e infraestrutura digital. Em 2026, as emissões de dívida das grandes empresas de nuvem equivaleram a 44% do que o Tesouro americano emitiu em prazos de dez anos ou mais. Quando a poupança global passa a ser disputada assim, o preço do dinheiro longo sobe para todo mundo, inclusive para o Brasil.

O maior risco. No curto prazo, o Federal Reserve. O mercado saiu de agosto precificando 67% de probabilidade de alta de juros na reunião de setembro e 91% de chance de a taxa terminar 2026 acima do patamar atual, depois do discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole. Um Fed que aperta enquanto o Copom corta é uma combinação desconfortável para ativos brasileiros, porque comprime o diferencial de juros que sustenta o real.

A principal oportunidade. A renda fixa brasileira de prazo intermediário. A curva de juros nominal está cerca de 120 pontos-base acima de onde estava seis meses atrás, o que significa que o investidor que trava taxa hoje leva um prêmio bem maior por assumir o mesmo risco de antes. Prefiro capturar isso no trecho de até três anos, onde o prêmio é bom e a exposição ao risco fiscal e eleitoral de longo prazo é menor.

O cenário ficou mais favorável ou menos favorável? Neutro, com composição diferente. Ficou melhor para quem recebe juros no Brasil e pior para quem paga duration lá fora. Para ativos de risco em geral, o balanço é de estabilidade: os lucros globais ajudam, o custo de capital atrapalha.

Ação ou paciência? Paciência, com dois ajustes finos. Não há nada no mês que justifique mexer na estrutura de uma carteira bem construída. Há espaço para dois movimentos graduais que descrevo na seção 13: subir um pouco a exposição a prefixados de prazo curto e intermediário e ficar mais seletivo em crédito privado.

Semáforo geral dos mercados

Brasil: amareloDesinflação e desaceleração abrem espaço para corte de juros, mas fiscal e eleição travam qualquer melhora sustentada do prêmio de risco.
Exterior: verdeLucros corporativos seguem surpreendendo para cima e o ciclo de investimento em tecnologia sustenta o crescimento, ainda que a valuation exija seletividade.
Renda fixa: verdeJuro real e nominal em patamares que raramente aparecem, com carrego que compete bem com qualquer outra classe.
Renda variável: amareloLá fora o fundamento acompanha o preço; aqui a atividade mais fraca pressiona lucros e a visibilidade política é baixa.
Crédito privado: vermelhoAumento de recuperações judiciais, piora de vieses de rating e custo do crédito para empresas acima do nível da crise de 2015 e 2016, com spreads que nem sempre pagam por isso.
Câmbio e proteção: amareloO real se beneficia do juro alto, mas o risco de um Fed mais duro e a agenda eleitoral pedem proteção estrutural, não tática.

O que mudou no semáforo desde agosto. Duas casas. O exterior passou de amarelo para verde, porque a temporada de resultados mostrou lucro entregando acima do esperado e não apenas preço subindo. E o crédito privado passou de amarelo para vermelho, que é a mudança mais séria desta edição: em agosto eu falava em dispersão crescente sem estresse sistêmico, e em setembro os eventos de crédito entre grandes empresas e o custo do crédito para pessoas jurídicas acima do nível de 2015 e 2016 deixaram de ser um risco de fundo para virar um fato em curso.

2. O que aconteceu no mês

A intervenção do Tesouro americano que durou um dia

O que aconteceu. Diante da abertura das taxas longas, o Tesouro dos Estados Unidos anunciou a ampliação das operações de recompra de títulos mais longos, incluindo vencimentos de 10 e 30 anos.

Por que foi relevante. Foi uma tentativa explícita de administrar o preço da parte longa da curva. A diferença em relação a um programa de afrouxamento quantitativo é decisiva: o Tesouro não cria moeda. Para recomprar, precisa usar caixa, elevar tributos ou emitir nova dívida, o que na prática significa trocar dívida longa por dívida curta.

Como o mercado reagiu. A taxa de 30 anos chegou a recuar quase 10 pontos-base no dia do anúncio, de 5,28% para 5,19%. Nos dias seguintes o movimento foi devolvido: 5,25% no dia seguinte e 5,27% no início de setembro. Na ponta de 10 anos o padrão foi o mesmo, com a taxa saindo de 4,71% para 4,64% no anúncio e chegando a 4,80% no início de setembro, acima de onde estava antes.

A reação pareceu racional? Racional e, na minha leitura, correta. O mercado precificou que a medida muda o perfil da dívida em circulação, não os fundamentos que empurram os juros longos para cima. Encurtar dívida para baratear a parte longa até pode aumentar o risco de refinanciamento adiante.

Estrutural ou tático? Estrutural. Convicção alta, horizonte de anos.

Impacto nos próximos meses. Juros longos globais mais altos elevam a taxa de desconto de todos os ativos, encarecem o custo de capital das empresas e limitam quanto o prêmio de risco brasileiro consegue fechar, mesmo que a agenda doméstica melhore.

Jackson Hole e a virada nas apostas sobre o Fed

O que aconteceu. Depois de dois meses de inflação mais benigna, o mercado passou a primeira metade de agosto reduzindo a probabilidade de novas altas de juros. O deflator do consumo de julho veio um pouco acima do esperado, com variação anual de 3,7% e núcleo de 3,3%. Dias depois, no simpósio de Jackson Hole, o presidente do Fed, Kevin Warsh, afirmou que as leituras melhores do verão não indicavam melhora consistente da tendência subjacente e que, com atividade e emprego razoáveis, o foco recairia inteiramente sobre a inflação.

Como o mercado reagiu. As Treasuries de um ano subiram 10 pontos-base no mesmo dia. As probabilidades implícitas viraram: 67% de chance de alta na reunião de setembro e 91% de chance de a taxa terminar 2026 acima do patamar atual.

A reação pareceu racional? Proporcional ao conteúdo, mas provavelmente exagerada na convicção. Sair de um mês inteiro apostando em corte para 91% de aposta em juro mais alto no fim do ano, com base em um discurso e um dado, mostra que o mercado está com pouca âncora sobre a função de reação do Fed. Isso é volatilidade contratada para os próximos meses.

Estrutural ou tático? Tático, com implicação estrutural: o novo estilo de comunicação, que evita sinalizações claras, tende a manter os prêmios de risco mais altos de forma permanente.

O mercado de trabalho americano começou a trincar

O que aconteceu. Geração líquida de empregos negativa em julho e revisão para baixo dos dois meses anteriores. Ainda assim, a taxa de desemprego recuou de 4,2% para 4,1%, porque a participação na força de trabalho caiu.

Por que foi relevante. Desemprego que cai por gente saindo do mercado não é sinal de força. É o tipo de leitura que costuma anteceder desaceleração mais visível.

A reação pareceu insuficiente? Sim, na minha leitura. O mercado deu pouco peso a esse dado e muito peso ao discurso de Jackson Hole. Se a fragilidade do emprego se confirmar nos próximos dois ou três meses, a precificação atual de alta de juros terá de ser desfeita rapidamente, o que é uma fonte de assimetria positiva para renda fixa global.

Petróleo perto de US$ 90 e o conflito que migrou de campo

O que aconteceu. O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã expirou em agosto. Houve ondas de ataques e retaliações, mas o movimento mais relevante foi a divulgação de um pacote mais duro de sanções, em uma tentativa de deslocar a pressão do campo militar para o econômico.

Como o mercado reagiu. O Brent encerrou o mês perto de US$ 90 por barril. O mercado leu a mudança de foco como redução do risco de interrupção física do transporte, mas o preço segue muito acima do patamar de US$ 70 anterior ao conflito, com o fluxo pelo Estreito de Ormuz quase paralisado.

Impacto nos próximos meses. Petróleo alto é um imposto sobre a desinflação global e sobre a margem das empresas importadoras de energia. No Brasil, ajuda a balança comercial e as empresas de óleo e gás, e atrapalha inflação e transporte.

Temporada de resultados: excelente lá fora, fraca aqui

O que aconteceu. Nos Estados Unidos, o lucro por ação das empresas do S&P 500 cresceu cerca de 50,0% na comparação anual, contra expectativa de 22,6%. Para o trimestre seguinte, a expectativa de crescimento é de 27,5%, revisada 0,8 ponto percentual para cima. No Brasil, apenas 41% das empresas superaram as estimativas de lucro líquido e 29% surpreenderam positivamente em receita, número baixo na comparação histórica.

Por que foi relevante. A diferença de qualidade dos resultados é hoje a principal justificativa fundamentalista para carregar mais risco fora do que dentro do Brasil. As estimativas de lucro por ação das empresas brasileiras para 2026 foram cortadas em 2,8% ao longo da temporada, com revisões negativas concentradas em utilidades públicas e no setor financeiro.

Estrutural ou tático? Estrutural no caso do ciclo de investimento em inteligência artificial. Tático no caso brasileiro, ligado ao momento do ciclo de juros e de atividade.

Eventos de crédito no Brasil

O que aconteceu. O mês registrou diversos eventos de crédito envolvendo grandes empresas, com aumento de recuperações judiciais e piora de vieses de rating. O indicador de custo do crédito para pessoas jurídicas do Banco Central já ultrapassa o nível atingido durante a crise de 2015 e 2016, e a inadimplência de empresas segue em tendência crescente desde 2025.

Por que foi relevante. Esse é o efeito defasado de um período longo de juros altos chegando ao balanço das empresas. A inadimplência corporativa costuma reagir com um a dois anos de atraso ao aumento do custo do crédito, o que significa que ainda estamos na parte de subida da curva.

Impacto nos próximos meses. É o principal motivo pelo qual estou mais cauteloso em crédito privado do que estive em qualquer momento dos últimos dois anos. Não vejo estresse sistêmico nem deterioração generalizada de liquidez nos balanços, mas vejo prêmios que não compensam adequadamente o risco de crédito, de liquidez e de estrutura assumido.

Gráfico 1
Retornos das classes de ativos em agosto de 2026 e no acumulado do anoGrafico de barras horizontais comparando o retorno de doze indices em agosto de 2026 e no acumulado de 2026. MSCI ACWI lidera com 3,26 por cento no mes e 19,97 por cento no ano. IFIX e Ibovespa foram os unicos negativos no mes.Renda variável global puxou o mês; o Brasil ficou para trásRetorno dos principais índices, em %. Índices globais em reais, com hedge cambial0%5%10%15%20%19,97%3,26%MSCI ACWI10,11%-0,33%Ibovespa9,81%1,09%IDA-DI9,33%1,09%CDI8,66%1,63%S&P US HY7,46%1,43%EM Aggregate7,06%1,04%IRF-M6,75%1,58%IMA-B5,65%1,10%S&P US IG4,73%1,61%IHFA3,88%1,26%IDA-IPCA-0,33%-1,46%IFIXAcumulado de 2026Agosto de 2026

Período: agosto de 2026 e acumulado de 2026 até 31/08/2026. Unidade: retorno em %, com índices globais convertidos para reais e com hedge cambial.

Leitura. A dispersão do mês fala por si. O índice global de ações rendeu 3,26% em agosto e acumula 19,97% no ano, enquanto o Ibovespa caiu 0,33% no mês e os fundos imobiliários recuaram 1,46%. Toda a renda fixa brasileira ficou positiva, com destaque para os títulos indexados à inflação, que subiram 1,58%.

Implicação para os investimentos. A diversificação internacional não foi um detalhe de carteira em 2026, foi o principal motor de retorno. Quem eliminou essa camada por achar o dólar caro no início do ano ficou com a metade pior do resultado. O ponto de inflexão a monitorar é o oposto: uma carteira que hoje depende demais de um único tema global fica exposta se o ciclo de tecnologia perder tração.

Fonte: Quantum e Bloomberg, com elaboração da Alocação XP. Reconstrução do gráfico pela Ocre Capital.

3. Cenário macroeconômico global

Estados Unidos

Atividade e emprego. A economia segue resiliente, mas com sinais mistos. Julho trouxe geração líquida de empregos negativa e revisão para baixo dos dois meses anteriores. A taxa de desemprego caiu de 4,2% para 4,1%, e caiu pelo motivo errado, com recuo da participação na força de trabalho.

Inflação. O índice de preços ao consumidor de julho surpreendeu levemente para baixo, com alta de 0,1% no mês e acumulado em doze meses recuando de 3,5% para 3,4%. O índice de preços ao produtor desacelerou de 5,5% para 4,7% em doze meses, um alívio relevante para a inflação de serviços adiante. O deflator do consumo, que é o índice que o Fed acompanha, veio um pouco acima do esperado, com 3,7% em doze meses e núcleo de 3,3%. Ou seja: melhorou, mas segue longe da meta de 2,0%.

Política monetária e comunicação. Este é o ponto mais delicado do cenário global. O Fed adotou um estilo de comunicação que evita sinalizações claras sobre os próximos passos. O resultado prático é que um único discurso move a curva inteira, como aconteceu em Jackson Hole. Para um investidor de longo prazo, isso significa uma coisa objetiva: mais volatilidade nas taxas, prêmio de prazo mais alto e menor valor em tentar antecipar reuniões.

Curva de juros e risco fiscal. A dívida pública americana atingiu US$ 40 trilhões. O problema central não é o tamanho do estoque, é a necessidade recorrente de refinanciar volumes gigantescos em um ambiente de juros mais altos. A taxa de 30 anos superou 5,30% em agosto, e a pressão foi acompanhada por movimentos semelhantes em Japão, Alemanha e França. Não é um fenômeno americano isolado, é um repreçamento global do dinheiro longo.

Valuation dos ativos. A bolsa americana renovou máximas com lucros que efetivamente entregaram. Isso é diferente de uma alta puramente de múltiplo. Ainda assim, alguns setores negociam em níveis exigentes, e o mercado passou a cobrar das grandes empresas de tecnologia a demonstração de retorno sobre os investimentos bilionários em inteligência artificial, não apenas o anúncio deles.

Gráfico 2
Emissoes de divida das hyperscalers de inteligencia artificial contra Treasuries de longo prazoGrafico de barras comparando, de 2020 a 2026, o volume anual de divida emitida pelas hyperscalers de inteligencia artificial e pelo Tesouro dos Estados Unidos em prazos de dez anos ou mais. Em 2026 as hyperscalers emitiram 247 bilhoes de dolares contra 561 bilhoes do Tesouro.A infraestrutura de IA virou concorrente do Tesouro americano por capital longoDívida emitida no ano, em US$ bilhões. Treasuries com prazo de 10 anos ou mais0250500750100074243202099133202177651202267321202373320202477610920255612472026Treasuries de longo prazoHyperscalers de IA

Período: 2020 a 2026. Unidade: dívida emitida no ano, em US$ bilhões, considerando Treasuries com prazo de dez anos ou mais.

Leitura. Em 2020, as grandes empresas de nuvem emitiram US$ 43 bilhões, contra US$ 742 bilhões do Tesouro americano em prazos longos. Em 2026, emitiram US$ 247 bilhões contra US$ 561 bilhões, o equivalente a 44% do volume do Tesouro. A mudança é de escala, não de grau.

Implicação para os investimentos. Aqui está, na minha leitura, o elo que explica o resto do relatório. Quando um novo tomador do tamanho da indústria de inteligência artificial entra na fila por capital longo, ele disputa a mesma poupança global que financia governos. O preço de equilíbrio do dinheiro longo sobe. Isso pressiona os juros dos países desenvolvidos, encarece o custo de capital das empresas e reduz o espaço para o prêmio de risco de países emergentes fechar. É o principal motivo pelo qual não trato a abertura das taxas longas como um exagero passageiro.

Fonte: Refinitiv e US Treasury, com elaboração da Alocação XP, data-base 02/09/2026. Reconstrução do gráfico pela Ocre Capital.

Europa

Os materiais que utilizo neste comitê não trazem dados detalhados de atividade, inflação ou política monetária da zona do euro em agosto. O que aparece de forma clara é que as taxas longas alemãs e francesas acompanharam a pressão observada nos Estados Unidos, o que reforça a leitura de que se trata de um movimento global de repreçamento do prêmio de prazo, e não de um problema local americano. Sobre o restante do quadro europeu, os materiais fornecidos não permitem uma conclusão segura sobre este ponto.

China

Da mesma forma, não recebi neste mês material com dados de crescimento, setor imobiliário, estímulos ou comércio exterior chinês. O que consigo afirmar com base nos dados disponíveis é indireto: os termos de troca brasileiros seguem favoráveis, sustentados pela alta das commodities, o que costuma indicar demanda externa razoável. Sobre a dinâmica interna da China, os materiais fornecidos não permitem uma conclusão segura sobre este ponto, e prefiro registrar a lacuna a preenchê-la com suposição.

Geopolítica

Concentro a análise no que afeta preço de ativo. O conflito no Oriente Médio permanece como o vetor geopolítico relevante, com efeito direto sobre o petróleo. O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã expirou em agosto e a pressão migrou para o campo econômico, com um pacote de sanções que busca cortar as ligações do país com a economia global e ameaçar empresas e países que mantenham negócios com ele. O Brent encerrou o mês perto de US$ 90, com o fluxo pelo Estreito de Ormuz quase paralisado.

O canal de transmissão para uma carteira brasileira é duplo e vai em direções opostas. Petróleo alto pressiona a inflação global, atrasa cortes de juros e encarece transporte e insumos. Ao mesmo tempo, favorece a balança comercial brasileira e o resultado das empresas de óleo e gás, que foram justamente o destaque positivo da temporada de resultados local, com crescimento de EBITDA de 79,7% na comparação anual.

Balanço do cenário global

Vetores positivos: lucros corporativos entregando acima do esperado nos Estados Unidos; ciclo de investimento em tecnologia e infraestrutura digital ainda em expansão e convertendo em receita; inflação americana em trajetória de melhora ainda que lenta; sinais de moderação no mercado de trabalho que, se confirmados, reabrem a discussão de corte de juros.

Vetores negativos: juros longos globais em novo patamar por razões estruturais; risco fiscal americano sem solução à vista; comunicação do Fed pouco previsível; petróleo em patamar elevado; concentração dos ganhos das bolsas em um único tema.

Cenário-base para três a seis meses. Crescimento global desacelerando de forma gradual, sem recessão, com inflação cedendo devagar demais para permitir corte rápido de juros nos Estados Unidos e taxas longas oscilando em patamar alto. Nesse ambiente, a renda variável global tende a seguir sustentada pelos lucros, mas com episódios de volatilidade sempre que a discussão sobre juros voltar ao centro.

4. Cenário macroeconômico do Brasil

A atividade perdeu tração e isso é a notícia boa

O PIB do segundo trimestre avançou 0,5% na comparação com o trimestre anterior, abaixo do crescimento de 1,1% do primeiro trimestre. Mais importante do que o número agregado é a composição. O consumo das famílias recuou 0,4%, mesmo com a renda real ainda em expansão e com estímulos fiscais sustentando parte da demanda. Isso sugere que o patamar elevado de juros, o endividamento das famílias e a menor confiança passaram a ter efeito mais relevante sobre a propensão a consumir.

Pelo lado da oferta, serviços cresceram apenas 0,2%, com três dos sete subsetores em expansão. A indústria avançou 0,1%, sustentada pela extrativa, que cresceu 3,4% puxada pela produção de petróleo. A surpresa positiva veio da agropecuária, com alta de 2,8%. A formação bruta de capital fixo cresceu 1,2%, influenciada em parte por investimentos de governos estaduais. A contribuição externa foi negativa, com queda de 0,8% das exportações e alta de 1,8% das importações.

Chamo isso de notícia boa por um motivo específico: uma economia que desacelera de forma gradual, sem ruptura, é exatamente o que permite ao Banco Central continuar cortando juros. A projeção de crescimento para o terceiro trimestre é de 0,3%.

A inflação está cedendo, e parte disso é temporário

O IPCA de julho interrompeu a sequência de surpresas baixistas, com avanço de 0,07% na comparação mensal, mas as surpresas se concentraram em itens mais voláteis. No acumulado em doze meses, o índice caiu de 4,64% para 4,44%, voltando a ficar levemente abaixo do limite superior da meta, de 4,50%. A inflação de serviços, que é a que mais acompanho por estar ligada ao mercado de trabalho, avançou acima das projeções, mas segue com tendência de melhora.

O IPCA-15 de agosto surpreendeu com deflação de 0,40%, levando o acumulado em doze meses de 4,52% para 4,24%. Aqui é preciso separar o que é sinal do que é ruído. Boa parte dessa deflação veio do Bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica, que trouxe queda temporária de 6,25% nas tarifas. A alimentação no domicílio recuou 0,97%, também mais do que o projetado, e esse grupo deve reacelerar no último trimestre do ano como consequência do El Niño forte esperado para o período.

Traduzindo: a desinflação é real, mas o número dos últimos dois meses está mais bonito do que a tendência subjacente. Quem tomar decisão de carteira olhando apenas o acumulado em doze meses vai se surpreender no quarto trimestre.

Política monetária

Com atividade mais fraca e inflação mais comportada, a expectativa de mercado é de um novo corte de 0,25 ponto percentual na reunião de setembro do Copom. Os demais cortes do ano devem ocorrer já depois das eleições, quando novos dados devem mostrar desaceleração mais clara. A projeção de referência que utilizo aponta Selic em 13,25% ao final de 2026 e 11,50% ao final de 2027, com possibilidade de o afrouxamento ganhar ritmo no ano que vem.

Vale registrar um ponto que costuma passar despercebido: o estímulo fiscal tem sido menos eficaz em impulsionar demanda do que se esperava, justamente porque consumidores e empresas estão muito endividados e os indicadores de confiança recuaram. Isso ajuda o Banco Central.

Fiscal, e por que ele continua sendo o assunto

O governo enviou o Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027 mantendo a mesma tendência de ajuste suave do resultado primário dos últimos anos. Em agosto, o Tesouro Nacional também revisou o Plano Anual de Financiamento da dívida, com maior participação de títulos pós-fixados indexados à Selic no estoque, refletindo a preferência atual dos investidores por papéis com menor sensibilidade a alterações de juros.

Essa mudança tem uma consequência prática que quero deixar explícita: quanto maior a fatia da dívida indexada à Selic, mais as despesas com juros do governo passam a reagir imediatamente a mudanças na taxa básica. O país fica mais sensível à própria política monetária. É uma escolha compreensível diante da demanda do mercado, e é também um aumento de fragilidade.

O mecanismo que descrevo em toda reunião segue igual: desequilíbrio fiscal gera prêmio de risco maior, prêmio maior derruba preço de ativo. Enquanto não houver reforma estrutural, o ajuste das contas públicas continuará sendo o principal assunto a mover o mercado brasileiro depois das eleições.

Crédito e o ciclo que está virando

Este é o ponto do cenário doméstico que mais mudou de qualidade nos últimos meses. O indicador de custo do crédito para pessoas jurídicas divulgado pelo Banco Central já ultrapassa o nível atingido durante a crise de 2015 e 2016. A inadimplência de pessoas jurídicas, que costuma reagir com defasagem de um a dois anos ao aumento do custo do crédito, está em tendência crescente desde 2025. Agosto trouxe diversos eventos de crédito entre grandes empresas, com maior pressão sobre geração de caixa e conversão de resultado operacional em caixa, ainda que sem deterioração relevante e generalizada de liquidez nos balanços.

O que ajuda, o que atrapalha

  • O que ajuda a economia: desinflação em curso, termos de troca favoráveis, agropecuária forte, produção de petróleo em alta, início do ciclo de corte de juros.
  • O que limita o crescimento: juro real ainda muito alto, endividamento de famílias e empresas, confiança em queda, eficácia decrescente do estímulo fiscal, custo do crédito corporativo em nível de crise.
  • O que pressiona a inflação: petróleo perto de US$ 90, El Niño forte no último trimestre, inflação de serviços ainda acima das projeções, reversão do Bônus de Itaipu, câmbio sensível a juros globais.
  • O que pode permitir mais corte de juros: confirmação da desaceleração do consumo, inflação de serviços cedendo, expectativas ancoradas, atividade global mais fraca.
  • O que pode impedir: Fed subindo juros e comprimindo o diferencial, deterioração fiscal, desancoragem das expectativas, choque de alimentos e energia.
  • O que pode alterar o prêmio de risco brasileiro: o resultado eleitoral e, principalmente, a sinalização sobre reforma estrutural das contas públicas que vier depois dele.

5. Atualização das projeções macroeconômicas

Com o comitê de agosto em mãos, a comparação mês a mês passa a existir de verdade. A tabela abaixo confronta o quadro de projeções que sustentou aquela edição com o quadro atual. Duas revisões são grandes o suficiente para mudar decisão de carteira, e volto a elas logo depois.

IndicadorProjeção em agostoProjeção em setembroDireção da revisãoImpacto nos ativos
Selic, fim de 202614,00%13,25%Para baixo, 75 pontos-baseRevisão mais relevante do mês. Melhora a assimetria dos prefixados e reduz o carrego futuro do pós-fixado
PIB 2026, variação real2,0%1,7%Para baixo, 0,3 ponto percentualPressiona lucros domésticos e é justamente o que abre espaço para mais cortes
IPCA 20265,1%5,0%Para baixo, marginalConfirma a desinflação sem alterar a tese de inflação acima da meta
Selic, fim de 202711,50%11,50%MantidaO ponto de chegada não mudou; mudou a velocidade até lá
PIB 20271,0%1,0%MantidaDesaceleração em 2027 segue como cenário central
Câmbio, fim de 2026R$ 5,00R$ 5,00MantidaA sustentação continua dependendo de petróleo e diferencial de juros
Dívida bruta 2027, % do PIB88,0%87,9%Praticamente mantidaTrajetória de alta intacta; melhora insuficiente para mudar a curva longa
Primário do governo central 2026, % do PIB-0,3%-0,3%MantidaSem alteração no prêmio de risco fiscal
IGP-M 20264,7%4,7%MantidaReferência para aluguéis e contratos indexados
Desemprego 2026, fim de período5,6%5,6%MantidaNível baixo ainda sustenta consumo, apesar da queda do consumo no segundo trimestre
Juros nos Estados Unidos3,50% a 3,75%, sem viés de alta67% de chance de alta em setembroReversão de leituraO risco de alta, que havia perdido força em agosto, voltou ao centro

Fonte: projeções XP de agosto e de setembro de 2026, conforme reproduzidas no Comitê Mensal Ocre Capital de agosto de 2026 e no material de setembro. Probabilidades do Fed: CME FedWatch, elaboração Alocação XP, data-base 01/09/2026.

A seguir, a trajetória completa dos indicadores, para quem quiser o quadro inteiro e não apenas o que mudou.

Fonte: IBGE, Banco Central, Bloomberg e projeções XP. Organização da tabela pela Ocre Capital.
Indicador2025 realizado2026 (proj.)2027 (proj.)Direção 2026 → 2027Impacto nos ativos
PIB, variação real2,3%1,7%1,0%DesaceleraçãoPressiona lucros de setores domésticos, favorece corte de juros
IPCA, 12 meses4,3%5,0%4,2%Alta em 2026, queda em 2027Sustenta o valor dos títulos indexados à inflação no médio prazo
IGP-M, 12 meses-1,0%4,7%4,0%Normalização em altaReajuste de aluguéis e receita de fundos imobiliários de tijolo
Selic, fim de período15,00%13,25%11,50%QuedaReduz carrego do pós-fixado e favorece prefixados e ativos de risco
Desemprego, fim de período5,3%5,6%6,5%AltaAlivia inflação de serviços e pesa sobre consumo discricionário
Câmbio, fim de períodoR$ 5,49R$ 5,00R$ 5,30Real forte em 2026, devolução em 2027Afeta o retorno em reais de qualquer posição internacional sem hedge
Primário do setor público, % do PIB-0,4%-0,4%-0,1%Melhora marginalInsuficiente para reduzir o prêmio de risco de forma consistente
Resultado nominal, % do PIB-8,3%-8,8%-8,2%Estabilidade em nível altoMantém a pressão sobre a parte longa da curva de juros
Dívida bruta do governo geral, % do PIB78,7%83,6%87,9%Alta relevantePrincipal vetor doméstico de risco para ativos de prazo longo
Dívida líquida do setor público, % do PIB65,3%70,0%74,4%AltaReforça a leitura acima
Balança comercial, US$ bilhões60,075,572,8Alta em 2026Sustenta o real e ajuda a conta externa
Conta corrente, % do PIB-3,0%-2,3%-2,2%MelhoraReduz a vulnerabilidade externa
Investimento direto no país, US$ bilhões77,785,080,0Alta em 2026Financia com folga o déficit em conta corrente
Gráfico 3
Projecoes macroeconomicas XP para Selic, IPCA e divida brutaDois paineis. O da esquerda mostra Selic e IPCA de fim de periodo entre 2024 e 2027, com a Selic caindo de 15 por cento em 2025 para 13,25 por cento em 2026 e 11,50 por cento em 2027. O da direita mostra a divida bruta do governo geral subindo de 78,7 por cento do PIB em 2025 para 83,6 por cento em 2026 e 87,9 por cento em 2027.Os juros caem, a dívida sobe: o dilema central do investidor brasileiroProjeções XP. Selic e IPCA de fim de período, em %. Dívida bruta do governo geral, em % do PIBSelic e IPCA (% ao ano)46810121416202420252026 (P)2027 (P)12,2515,0013,2511,504,84,35,04,2Selic (fim de período)IPCA (12 meses)Dívida bruta do governo geral (% do PIB)707580859076,5202478,7202583,62026 (P)87,92027 (P)

Período: 2024 e 2025 realizados, 2026 e 2027 projetados. Unidade: Selic e IPCA em % ao ano de fim de período; dívida bruta em % do PIB.

Leitura. As duas séries contam histórias opostas. A Selic sai de 15,00% no fim de 2025 para 13,25% em 2026 e 11,50% em 2027, enquanto a dívida bruta sobe de 78,7% para 83,6% e depois 87,9% do PIB.

Implicação para os investimentos. Este é o dilema central de qualquer carteira brasileira hoje. A queda dos juros é o vetor que valoriza prefixados, títulos indexados à inflação, fundos imobiliários e ações. A trajetória da dívida é o vetor que impede esse movimento de ir longe, porque cobra prêmio de risco crescente nos prazos longos. É por isso que capturo o ciclo de corte na parte curta e intermediária da curva e não na ponta longa. O ponto de inflexão a monitorar é uma sinalização concreta de ajuste estrutural das contas públicas: se ela vier, a parte longa passa a ser a maior oportunidade da carteira; enquanto não vier, ela é a maior armadilha.

Fonte: IBGE, Banco Central e projeções XP. Reconstrução do gráfico pela Ocre Capital.

Quais revisões são mais relevantes

A primeira, e a que mais muda decisão, é a Selic. Em agosto eu trabalhava com o ciclo de cortes encerrado em 14,00% e o Copom em pausa dependente de dados. Um mês depois, a projeção de fim de 2026 caiu para 13,25%, o que significa três cortes adicionais em vez de nenhum. Não foi o preço do ativo que mudou, foi o fundamento: a atividade desacelerou mais rápido e a inflação cedeu antes do previsto. É essa revisão que sustenta a mudança de postura em prefixados que descrevo na seção 7.

A segunda é o PIB de 2026, revisado de 2,0% para 1,7%. Parece pouco, mas é a confirmação quantitativa da desaceleração que o consumo das famílias já vinha mostrando, e é a condição que torna os cortes adicionais possíveis. As duas revisões contam a mesma história por lados opostos.

A terceira não aparece na tabela como número, e sim como reversão de leitura: em agosto o risco de alta de juros nos Estados Unidos havia perdido força e sido substituído por risco de prêmio de prazo. Em setembro, o risco de alta voltou, com 67% de probabilidade precificada, sem que o prêmio de prazo tenha cedido. Os dois riscos agora convivem, o que é pior do que qualquer um deles isolado.

A segunda é a dívida bruta saltando de 78,7% para 87,9% do PIB em dois anos. Essa é a variável que, na minha leitura, o mercado ainda não precificou integralmente, porque parte relevante do ajuste depende de decisões que só serão tomadas depois das eleições.

A terceira é o câmbio projetado em R$ 5,00 no fim de 2026 e R$ 5,30 em 2027. Um real mais forte no curto prazo é consistente com juro alto e balança comercial recorde, mas a devolução projetada para 2027 mostra que essa força não é vista como estrutural. Para quem tem posição internacional, essa é a diferença entre olhar o retorno em dólar e o retorno em reais.

O que já está no preço: o corte de setembro do Copom, a desaceleração gradual da atividade e a inflação em torno de 5% neste ano. O que ainda pode gerar movimento: a velocidade dos cortes em 2027, o desenho fiscal pós-eleição e uma eventual alta de juros nos Estados Unidos.

6. Leitura das curvas de juros

Curva brasileira

Gráfico 4
Curva de juros nominal brasileira: atual, seis meses atras e um ano atrasGrafico de linhas da curva de juros nominal do Brasil por vertice de vencimento, de 2027 a 2038. A curva atual esta inteiramente acima das curvas de seis meses e um ano atras, com o trecho longo proximo de 14,5 por cento.A curva longa está cerca de 120 pontos-base acima de seis meses atrásCurva de juros nominal por vértice de vencimento, em % ao ano12,0%12,5%13,0%13,5%14,0%14,5%15,0%20272028202920302031203220332035203720381 ano atrás6 meses atrásAtual (28/08/2026)

Período: curva atual em 28/08/2026, comparada com seis meses e um ano antes. Unidade: % ao ano por vértice de vencimento.

Leitura. A curva atual está integralmente acima das duas anteriores. O trecho curto, em 2027, saiu de cerca de 13,05% seis meses atrás para cerca de 13,60%. O trecho longo, entre 2032 e 2035, saiu de cerca de 13,10% para cerca de 14,50%, uma abertura próxima de 120 a 140 pontos-base. A curva também mudou de formato: era descendente no trecho curto e passou a ser ascendente do início ao fim.

Implicação para os investimentos. Travar taxa hoje paga substancialmente mais do que pagava no primeiro semestre, e essa é a melhor notícia do mês para o investidor brasileiro. A ressalva é sobre onde capturar isso. A inclinação positiva mostra que o mercado exige prêmio crescente para financiar o país por prazos longos, o que é um recado sobre risco fiscal e não uma promessa de retorno. O ponto de inflexão relevante foi a mudança de formato da curva, não apenas o nível.

Fonte: Bloomberg, com elaboração da Alocação XP, data-base 28/08/2026. Reconstrução do gráfico pela Ocre Capital, com valores lidos de forma aproximada a partir do gráfico original.

Trecho curto. É onde vejo a melhor relação entre risco e retorno da renda fixa brasileira hoje. O prêmio embutido nos vencimentos de até três anos incorpora dúvida sobre a continuidade dos cortes, e a desaceleração da atividade aumenta a probabilidade de que esses cortes venham. Se vierem, quem travou taxa ganha duas vezes: pelo carrego e pela marcação.

Trecho intermediário. Combina prêmio elevado com exposição ainda razoável ao ciclo de política monetária. É onde faz sentido concentrar a duration de prefixado, e é por isso que trabalho com algo próximo de três anos nessa classe.

Trecho longo. Aqui o prêmio é alto, mas não é gratuito. Ele reflete risco fiscal, incerteza eleitoral e a pressão dos juros globais. Alongar duration nesse trecho sem um catalisador claro é assumir risco de marcação relevante em troca de um prêmio que pode continuar aumentando antes de diminuir.

Volatilidade e prêmio real. As taxas reais seguem atrativas para quem tem horizonte longo. A questão não é se o prêmio existe, é se a carteira aguenta a oscilação até que ele se realize. Duration é um instrumento, não um troféu.

Gráfico 5
Inflacao implicita na curva de juros brasileiraGrafico de linhas da inflacao implicita por prazo, de um a dez anos. A curva atual esta bem acima das leituras de seis meses e um ano atras em todos os prazos, com 6,40 por cento em um ano contra 4,55 por cento seis meses atras.Proteger a carteira da inflação ficou caro em toda a curvaInflação implícita por prazo, em % ao ano3,5%4,0%4,5%5,0%5,5%6,0%6,5%7,0%1 ano2 anos3 anos5 anos10 anos1 ano atrás6 meses atrásAtual (28/08/2026)

Período: curva atual em 28/08/2026, comparada com seis meses e um ano antes. Unidade: inflação implícita em % ao ano, por prazo.

Leitura. A inflação implícita de um ano saltou de cerca de 4,55% seis meses atrás para cerca de 6,40%. Em dez anos, saiu de cerca de 5,95% para cerca de 6,45%. Toda a curva subiu, e o movimento foi muito mais forte na parte curta.

Implicação para os investimentos. Este gráfico responde a uma pergunta que recebo com frequência: se o IPCA está cedendo, por que não carregar mais títulos atrelados à inflação? Porque o custo dessa proteção subiu. Quando a implícita de um ano está em 6,40% e a projeção de IPCA para 2026 é de 5,0%, o investidor que compra proteção de curto prazo está pagando caro por um seguro contra um risco que os dados recentes vêm mostrando menor. Por isso mantenho a exposição a inflação em posição tática levemente abaixo do neutro, sem abrir mão do papel estrutural da classe, e concentro a compra em prazos mais longos, onde a distorção é menor.

Fonte: Bloomberg, com elaboração da Alocação XP, data-base 28/08/2026. Reconstrução do gráfico pela Ocre Capital, com valores lidos de forma aproximada a partir do gráfico original.

Curva americana

Treasuries curtas. Reagiram imediatamente ao discurso de Jackson Hole, com alta de 10 pontos-base no vencimento de um ano em um único dia. Hoje embutem 67% de probabilidade de alta na reunião de setembro. É uma precificação agressiva construída sobre pouca informação, e por isso mesmo instável.

Treasuries longas. A taxa de 10 anos saiu de 4,67% no início de agosto para 4,80% no início de setembro. A de 30 anos foi de 5,23% para 5,27%, tendo superado 5,30% durante o mês. O que torna esse movimento diferente dos anteriores é a causa: não é expectativa de inflação, é prêmio de prazo, alimentado por oferta de dívida e demanda por capital.

Inclinação. A curva americana segue ganhando inclinação positiva, com a ponta longa subindo mais do que a curta. Historicamente, esse formato aparece quando o mercado cobra mais para financiar prazo, e não quando espera crescimento forte.

Impacto sobre o dólar e emergentes. Juro americano longo mais alto reduz o apelo relativo de ativos de risco em mercados emergentes e limita quanto o prêmio brasileiro consegue fechar. Ao mesmo tempo, o mês mostrou que a relação não é mecânica: o dólar chegou a se desvalorizar de forma expressiva no dia do anúncio da intervenção do Tesouro, porque a medida levantou dúvidas sobre a própria gestão da dívida americana, e só se recuperou depois de Jackson Hole.

Conclusão sobre as curvas. A curva brasileira cria oportunidade, principalmente nos prazos curto e intermediário. A curva americana exige cautela, especialmente em duration longa. É por isso que trabalho com duration menor na renda fixa internacional, em torno de dois anos, e mantenho a classe próxima da neutralidade.

7. Perspectivas por classe de ativo

Uso o mesmo formato para todas as classes, para que você possa comparar mês a mês sem depender da minha ênfase. Onde os materiais deste mês não trazem base suficiente, digo isso em vez de preencher.

Caixa e liquidez Mais favorável

O que mudou
Nada de relevante. O CDI rendeu 1,09% em agosto e acumula 9,33% no ano.
Tese principal
Com Selic em patamar de dois dígitos e cortes graduais, o caixa não é custo de oportunidade, é opção de compra sobre volatilidade futura. Em um ano de eleição, com curva instável e ciclo de crédito virando, ter caixa é o que permite comprar bem quando aparecer preço.
O mercado já precificou?
Não se aplica. Caixa é decisão de estrutura de carteira, não de preço.
Principais riscos
Excesso de caixa por tempo indeterminado corrói retorno real e vira procrastinação disfarçada de prudência.
Horizonte
Curto prazo
Convicção
★★★★★
Direcionamento
Manter, respeitando o mínimo definido para cada perfil

Pós-fixados Mais favorável

O que mudou
A perspectiva de novos cortes da Selic começa a reduzir o carrego futuro da classe, ainda que o nível permaneça alto.
Tese principal
Retorno competitivo, baixa volatilidade e liquidez, especialmente por meio de títulos públicos. Diante das incertezas fiscal e eleitoral, a classe cumpre papel de estabilidade e flexibilidade no portfólio. O que mudou na minha leitura é que ela não deve ser a única fonte de retorno.
O mercado já precificou?
Sim. O carrego atual é conhecido e a trajetória de queda da Selic já está na curva.
Principais riscos
Cortes de juros mais rápidos que o esperado reduzem o retorno mais cedo. Em crédito privado pós-fixado, os prêmios podem não compensar o risco assumido.
Horizonte
Curto e médio prazo
Convicção
★★★★★
Direcionamento
Manter, com redução gradual da parcela alocada em crédito privado pós-fixado

Prefixados Mais favorável

O que mudou
Este é o principal ajuste do mês. A desaceleração mais clara da atividade e as leituras recentes mais benignas de inflação podem abrir espaço para cortes da Selic além do que está precificado hoje.
Tese principal
Não aumento a exposição por deixar de reconhecer os riscos inflacionário, fiscal e eleitoral. Aumento porque o prêmio presente na curva curta oferece uma relação entre risco e retorno mais favorável do que oferecia. Trabalho com duration próxima de três anos, e não de quatro como antes, para capturar mais influência da política monetária e limitar exposição aos riscos de prazo longo.
O mercado já precificou?
Parcialmente. A curva embute cortes, mas não a possibilidade de o ciclo ir além, que é justamente a assimetria que me interessa.
Principais riscos
Reaceleração da inflação no quarto trimestre por El Niño e reversão do Bônus de Itaipu; Fed subindo juros; deterioração fiscal antes da eleição.
Horizonte
Médio prazo
Convicção
★★★★☆
Direcionamento
Aumentar gradualmente, com duration em torno de três anos

Títulos indexados à inflação Neutra

O que mudou
A inflação implícita subiu bastante, sobretudo na parte curta da curva, encarecendo a proteção inflacionária no mesmo mês em que os dados de inflação vieram melhores.
Tese principal
A classe continua ocupando espaço relevante pelo papel de preservação do poder de compra e pela construção de retorno real de longo prazo. As taxas reais seguem atrativas para quem tem horizonte longo. No curto prazo, mantenho posição tática levemente abaixo do neutro, refletindo a maior probabilidade de inflação mais comportada com a atividade desacelerando.
O mercado já precificou?
Precificou demais no trecho curto. Nos prazos longos a assimetria é melhor.
Principais riscos
Expectativas de inflação desancorando, trajetória fiscal, petróleo e condições climáticas. Volatilidade de marcação relevante com duration de seis anos.
Horizonte
Longo prazo
Convicção
★★★★☆
Direcionamento
Manter, com duration em torno de seis anos

Crédito privado de alta qualidade Neutra

O que mudou
Condições de financiamento mais restritivas e piora dos vieses de rating em parte do mercado corporativo.
Tese principal
Emissores de primeira linha seguem com balanços sólidos e a classe continua fazendo sentido como fonte de carrego acima do título público. A questão não é a qualidade do emissor, é o preço: o spread adicional precisa remunerar risco de crédito, de liquidez e de estrutura ao mesmo tempo.
O mercado já precificou?
Ainda não integralmente. Os spreads não reagiram na intensidade que a piora do ciclo de crédito sugeriria.
Principais riscos
Abertura de spreads, iliquidez em janelas de estresse, concentração por emissor.
Horizonte
Médio prazo
Convicção
★★★☆☆
Direcionamento
Manter, com mais seletividade e respeito rigoroso a limites por emissor

Crédito privado de maior risco Menos favorável

O que mudou
Aumento das recuperações judiciais, diversos eventos de crédito entre grandes empresas em agosto, custo do crédito para pessoas jurídicas acima do nível da crise de 2015 e 2016, inadimplência corporativa em tendência crescente desde 2025.
Tese principal
Estamos na parte de subida da curva de inadimplência, não no fim dela, porque a inadimplência corporativa reage com um a dois anos de defasagem ao aumento do custo do crédito. Os balanços não indicam quadro de estresse sistêmico nem deterioração generalizada de liquidez, mas os prêmios disponíveis podem não compensar adequadamente os riscos assumidos.
O mercado já precificou?
Não. Na minha leitura, é onde há maior distância entre risco percebido e risco real.
Principais riscos
Perda permanente de capital, que é diferente de oscilação de preço. Um evento de crédito não se recupera com paciência.
Horizonte
Médio prazo
Convicção
★★★★☆ na cautela
Direcionamento
Reduzir gradualmente e evitar novas alocações sem prêmio claramente superior

Debêntures incentivadas Neutra

O que mudou
Os materiais deste mês não trazem análise específica sobre o segmento incentivado. O que se aplica é o quadro geral de crédito corporativo descrito acima.
Tese principal
A isenção fiscal para pessoa física continua sendo uma vantagem real, principalmente em papéis atrelados à inflação com prazo longo, e por isso a classe segue tendo lugar em carteiras de investidores pessoa física com horizonte compatível. A ressalva é que a isenção não corrige risco de crédito nem risco de liquidez, e o benefício fiscal costuma ser usado para justificar prêmios menores do que o risco pediria.
O mercado já precificou?
Os materiais fornecidos não permitem uma conclusão segura sobre este ponto no nível de spreads do segmento.
Principais riscos
Liquidez baixa no secundário, concentração por emissor e setor, marcação a mercado em prazos longos.
Horizonte
Longo prazo
Convicção
★★★☆☆
Direcionamento
Manter, com seletividade de emissor e atenção ao prazo. Vale lembrar que a alocação de pessoa jurídica em ativos isentos raramente faz sentido.

Fundos de crédito Neutra

O que mudou
O ambiente de crédito corporativo piorou, o que aumenta a importância da gestão ativa e da política de liquidez do fundo.
Tese principal
O veículo faz sentido justamente quando a seleção de crédito fica difícil, porque dá diversificação de emissores que o investidor pessoa física dificilmente monta sozinho. Em contrapartida, o risco que mais importa em um ciclo virando não é o do papel, é o de resgates: fundo com prazo de resgate curto e carteira ilíquida é combinação frágil.
O mercado já precificou?
Parcialmente, com dispersão grande entre gestores.
Principais riscos
Descasamento entre liquidez da carteira e prazo de resgate, marcação em janelas de estresse, concentração.
Horizonte
Médio prazo
Convicção
★★★☆☆
Direcionamento
Manter, priorizando prazo de resgate compatível com a carteira do fundo

Fundos multimercados Neutra

O que mudou
O IHFA subiu 1,61% em agosto e acumula 4,73% no ano, abaixo do CDI, que rende 9,33% no mesmo período.
Tese principal
A dispersão de cenários hoje é alta, e é exatamente nesse ambiente que estratégias com flexibilidade para navegar diferentes mercados e fatores de risco agregam. Vejo mais valor em estratégias macro e long and short do que em posições direcionais. A atenção necessária é com fundos que concentram posição no chamado kit Brasil, porque isso reduz o benefício de descorrelação em relação ao resto da carteira local.
O mercado já precificou?
Não se aplica diretamente. O retorno depende da habilidade do gestor, não do preço de entrada.
Principais riscos
Desempenho abaixo do CDI por período prolongado, correlação escondida com ativos locais, custo elevado sem entrega.
Horizonte
Médio prazo
Convicção
★★★☆☆
Direcionamento
Manter, com foco em macro e long and short e atenção à correlação real

Fundos imobiliários Neutra

O que mudou
O IFIX caiu 1,46% em agosto e acumula queda de 0,33% em 2026, sendo a única classe negativa no ano entre as que acompanho.
Tese principal
Existe hoje um descompasso entre fundamento operacional e preço. No segmento logístico, a vacância permanece próxima das mínimas históricas, sustentada pela demanda dos grandes operadores de comércio. Em lajes corporativas, o mercado segue aquecido, com melhora dos indicadores de ocupação nos principais centros comerciais. O que trava a valorização não é o imóvel, é a taxa de juro real. Mantenho preferência por fundos de papel, favorecidos pelo carrego elevado e por perfil mais defensivo, e vejo oportunidades seletivas em fundos de tijolo com fundamentos resilientes.
O mercado já precificou?
Precificou o juro alto. Não precificou a melhora operacional, o que é a base da assimetria.
Principais riscos
Juro real permanecendo alto por mais tempo, o que adia indefinidamente a reprecificação; qualidade do crédito nos fundos de papel; concentração por ativo e por inquilino.
Horizonte
Médio e longo prazo
Convicção
★★★☆☆
Direcionamento
Manter, com preferência por fundos de papel

Ações brasileiras Neutra

O que mudou
Temporada de resultados fraca, com apenas 41% das empresas superando estimativas de lucro líquido, e corte de 2,8% nas estimativas de lucro por ação para 2026. O Ibovespa caiu 0,33% em agosto, mas acumula alta de 10,11% no ano.
Tese principal
Mantenho visão cautelosa e posicionamento abaixo da alocação estratégica de longo prazo. As incertezas fiscal e eleitoral limitam a visibilidade no curto prazo, e a desaceleração da atividade pressiona lucros nos setores mais ligados ao mercado doméstico. Do outro lado, os termos de troca favoráveis sustentam parte da bolsa, as avaliações permanecem atrativas em diversos segmentos e a continuidade da queda dos juros tende a beneficiar ativos de risco. O balanço justifica postura seletiva, não ausência.
O mercado já precificou?
Precificou o risco político. Não precificou nem um desfecho eleitoral favorável nem um desfavorável, o que significa volatilidade contratada nos próximos meses.
Principais riscos
Revisões adicionais de lucro, deterioração fiscal, Fed mais duro, saída de fluxo estrangeiro.
Horizonte
Longo prazo
Convicção
★★★☆☆
Direcionamento
Manter abaixo da alocação estratégica, com aportes graduais

Small caps brasileiras Menos favorável

O que mudou
Os materiais deste mês não trazem análise específica do segmento de menor capitalização. A leitura abaixo decorre do quadro macro descrito e deve ser tratada como tal.
Tese principal
Empresas de menor porte são mais sensíveis ao custo do crédito e à atividade doméstica, e os dois vetores estão desfavoráveis: custo do crédito corporativo acima do nível de 2015 e 2016 e consumo das famílias em queda. Historicamente, esse segmento é o que mais se beneficia de um ciclo de corte de juros, mas costuma reagir quando o corte já está claramente em curso, não na antecipação dele.
O mercado já precificou?
Os materiais fornecidos não permitem uma conclusão segura sobre o valuation específico do segmento.
Principais riscos
Alavancagem, liquidez reduzida, sensibilidade a eventos de crédito.
Horizonte
Longo prazo
Convicção
★★☆☆☆
Direcionamento
Evitar aumento agora, dentro da parcela de renda variável Brasil e apenas para perfis compatíveis

Ações americanas Mais favorável

O que mudou
Nova rodada de máximas, lucro por ação crescendo cerca de 50,0% na comparação anual contra expectativa de 22,6% e revisão positiva de 0,8 ponto percentual na expectativa para o trimestre seguinte, que passou a 27,5%. O S&P 500 subiu 3,3% em agosto e acumula 18,9% no ano em reais com hedge.
Tese principal
O ciclo de investimento em inteligência artificial, infraestrutura digital e computação em nuvem continua impulsionando receitas e expectativas de lucro em vários segmentos da economia global. O que sustenta minha visão não é o preço subindo, é o lucro acompanhando. A temporada mostrou que os investimentos em inteligência artificial vêm se traduzindo em demanda efetiva e geração de caixa, especialmente entre empresas de tecnologia e semicondutores.
O mercado já precificou?
Precificou o crescimento. Não precificou uma frustração, e é aí que mora o risco.
Principais riscos
Concentração excessiva em poucos nomes; valuation exigente em alguns setores; juros longos mais altos comprimindo múltiplos; frustração na conversão dos investimentos em inteligência artificial em retorno.
Horizonte
Longo prazo
Convicção
★★★★☆
Direcionamento
Manter, com seletividade e atenção à concentração

Ações internacionais fora dos Estados Unidos Mais favorável

O que mudou
O ajuste do mês na carteira global reduziu renda fixa soberana de países desenvolvidos e aumentou a participação em ações de mercados desenvolvidos fora dos Estados Unidos.
Tese principal
É a forma mais direta de reduzir a dependência de um único mercado e de um único tema sem abrir mão de exposição a economias desenvolvidas. Funciona como contrapeso à concentração da bolsa americana em tecnologia.
O mercado já precificou?
Menos do que precificou os Estados Unidos, o que é parte do argumento.
Principais riscos
Crescimento europeu fraco, risco político, exposição cambial cruzada. Os materiais deste mês não trazem dados detalhados de atividade e inflação na Europa, o que reduz minha convicção sobre o timing.
Horizonte
Longo prazo
Convicção
★★★☆☆
Direcionamento
Aumentar gradualmente dentro da parcela internacional

Mercados emergentes Neutra

O que mudou
A dívida de emergentes em dólar rendeu 1,43% em agosto e acumula 7,46% no ano. Na parcela de ações, a alocação global de referência mantém peso pequeno, de 2,0%.
Tese principal
Emergentes dependem de dois fatores que hoje estão em direções opostas: commodities favoráveis, que ajudam, e juro americano longo em alta, que atrapalha. Enquanto o segundo vetor prevalecer, a classe tende a entregar mais pelo carrego da dívida do que pela valorização das ações.
O mercado já precificou?
Parcialmente. O prêmio da dívida emergente segue interessante; o das ações depende do ciclo global de juros.
Principais riscos
Dólar forte, desaceleração da China, eventos políticos locais.
Horizonte
Médio e longo prazo
Convicção
★★★☆☆
Direcionamento
Manter, com preferência pela dívida sobre as ações

Commodities Neutra

O que mudou
O petróleo Brent encerrou agosto perto de US$ 90 por barril, ainda muito acima do patamar de US$ 70 anterior ao conflito no Oriente Médio. Os termos de troca brasileiros seguem favoráveis, sustentados pela alta das commodities.
Tese principal
Não trato commodities como classe de alocação estrutural em carteiras de pessoa física, e sim como fator de risco que já entra na carteira por outras portas: pelas ações de energia e materiais básicos, pelo câmbio e pela inflação. O que importa aqui é reconhecer que o investidor brasileiro já tem exposição relevante a esse fator, mesmo sem comprar commodities diretamente.
O mercado já precificou?
O preço atual embute prêmio geopolítico relevante. Uma solução para o conflito derrubaria esse prêmio rapidamente.
Principais riscos
Reversão do prêmio geopolítico, desaceleração da demanda global, volatilidade elevada.
Horizonte
Curto prazo
Convicção
★★☆☆☆
Direcionamento
Manter exposição indireta, sem alocação dedicada

Ouro Mais favorável

O que mudou
O comportamento do ouro em 2026 evidencia correlação historicamente negativa com o dólar, e o metal recuperou terreno na segunda metade do ano à medida que cresceram os questionamentos sobre a sustentabilidade fiscal da economia americana.
Tese principal
Em um cenário marcado por dúvidas sobre a dívida americana, maior volatilidade dos mercados e busca por proteção patrimonial, o ouro atua como instrumento de preservação de valor. Trato a posição como estrutural, e não como aposta tática de preço.
O mercado já precificou?
O movimento de 2026 já foi expressivo. Comprar proteção depois de forte valorização reduz a eficiência do seguro, o que reforça o caráter gradual da construção.
Principais riscos
Ausência de fluxo de caixa, volatilidade elevada, reversão caso a percepção de risco fiscal americano melhore.
Horizonte
Longo prazo
Convicção
★★★★☆
Direcionamento
Manter dentro da parcela de alternativos, com construção gradual

Dólar e moedas Neutra

O que mudou
Agosto mostrou as duas forças em ação: o dólar se desvalorizou fortemente no dia do anúncio da intervenção do Tesouro americano, quando o mercado questionou a gestão da dívida, e reverteu o movimento com o discurso de Jackson Hole. A projeção de referência aponta câmbio em R$ 5,00 no fim de 2026 e R$ 5,30 em 2027.
Tese principal
Exposição cambial em uma carteira brasileira é proteção, não aposta direcional. Ela existe para reduzir a dependência de um único país, de uma única moeda e de uma única jurisdição. A recomendação de referência é que ao menos 15% do patrimônio financeiro esteja em um portfólio global dolarizado, e essa é uma decisão de estrutura que não deveria mudar conforme a cotação do dia.
O mercado já precificou?
O real forte de 2026 reflete juro alto e balança comercial recorde. A devolução projetada para 2027 mostra que essa força não é vista como permanente.
Principais riscos
Aumentar exposição depois de forte desvalorização do real, que é o erro clássico; e reduzir proteção depois de forte valorização, que é o mesmo erro invertido.
Horizonte
Longo prazo
Convicção
★★★★☆
Direcionamento
Manter a exposição estrutural, sem movimentos táticos

Ativos alternativos Mais favorável

O que mudou
O ambiente recente reforçou a importância de ativos com comportamento distinto dos mercados tradicionais, diante dos questionamentos sobre a sustentabilidade fiscal americana e da maior volatilidade dos mercados.
Tese principal
Vejo a classe como componente estrutural das carteiras, oferecendo exposição a fontes diversificadas de retorno, estratégias descorrelacionadas e oportunidades de geração de valor no longo prazo. Não é uma aposta sobre o próximo semestre.
O mercado já precificou?
Não se aplica de forma direta, porque a maior parte dessas estratégias não tem preço público diário.
Principais riscos
Iliquidez, prazos longos de capital comprometido, dispersão grande de resultados entre gestores, complexidade de avaliação.
Horizonte
Longo prazo
Convicção
★★★★☆
Direcionamento
Manter, com entrada gradual e apenas para perfis com horizonte e liquidez compatíveis

8. Matriz de convicção

Classe de ativoViésConvicçãoHorizontePrincipal fundamentoPrincipal risco
Caixa e pós-fixadosMuito positivo★★★★★CurtoCarrego elevado com liquidez e baixa volatilidadeCortes de juros mais rápidos que o esperado
Prefixados até 3 anosPositivo★★★★☆MédioPrêmio na curva curta e exposição ao ciclo de cortesReaceleração da inflação no quarto trimestre
Indexados à inflaçãoNeutro★★★★☆LongoTaxas reais atrativas e preservação de poder de compraInflação implícita cara no trecho curto
Crédito privado de alta qualidadeNeutro★★★☆☆MédioCarrego acima do título público com emissor sólidoAbertura de spreads e iliquidez
Crédito privado de maior riscoNegativo★★★★☆MédioCiclo de crédito virando com prêmio insuficientePerda permanente de capital
Debêntures incentivadasNeutro★★★☆☆LongoBenefício fiscal real para pessoa físicaLiquidez do secundário e concentração
MultimercadosNeutro★★★☆☆MédioDispersão de cenários valoriza flexibilidadeEntrega abaixo do CDI por período prolongado
Fundos imobiliáriosNeutro★★★☆☆Médio e longoFundamento operacional melhor que o preço sugereJuro real alto por mais tempo
Ações BrasilNeutro★★★☆☆LongoValuation atrativo e termos de troca favoráveisRevisão de lucros e incerteza eleitoral
Small caps BrasilNegativo★★☆☆☆LongoSensibilidade alta ao ciclo de crédito e à atividadeAlavancagem e liquidez reduzida
Ações Estados UnidosPositivo★★★★☆LongoLucros acompanhando o preço, ciclo de tecnologia em cursoConcentração e juros longos mais altos
Ações desenvolvidos fora dos EUAPositivo★★★☆☆LongoContrapeso à concentração da bolsa americanaCrescimento europeu fraco
Mercados emergentesNeutro★★★☆☆Médio e longoCarrego da dívida em dólarJuro americano longo em alta
CommoditiesNeutro★★☆☆☆CurtoPrêmio geopolítico no petróleoReversão rápida do prêmio
OuroPositivo★★★★☆LongoPreservação de valor com correlação negativa ao dólarAusência de fluxo de caixa e volatilidade
Dólar e proteção cambialPositivo★★★★☆LongoDiversificação de moeda e jurisdiçãoMovimentos táticos no momento errado
AlternativosPositivo★★★★☆LongoFontes de retorno descorrelacionadasIliquidez e dispersão entre gestores

9. Cenários prospectivos para os próximos seis a doze meses

Cenário-base, cerca de 55%

Premissas. Desaceleração gradual da atividade brasileira, sem ruptura, com o Copom seguindo com cortes graduais. Fed mantendo os juros ou promovendo um ajuste pontual para cima, sem iniciar um ciclo de aperto. Petróleo oscilando em patamar elevado. Eleição sem definição clara sobre agenda fiscal até o resultado.

  • Inflação: IPCA em torno de 5% em 2026, com reaceleração no quarto trimestre por alimentos e energia, cedendo em 2027.
  • Juros: Selic terminando 2026 próxima de 13,25%, com curva longa permanecendo alta pela pressão fiscal e global.
  • Câmbio: real sustentado pelo diferencial de juros, com volatilidade em torno da eleição.
  • Crescimento: PIB perto de 1,7% em 2026 e desacelerando em 2027.
  • Bolsa: Brasil andando de lado com dispersão setorial alta; bolsas globais sustentadas pelos lucros.
  • Renda fixa: a classe com melhor relação entre risco e retorno, principalmente nos prazos curto e intermediário.
  • Crédito: inadimplência corporativa seguindo em alta, com spreads abrindo de forma seletiva.
  • Internacional: renda variável global segue como principal motor de retorno, com episódios de volatilidade.

Cenário otimista, cerca de 20%

Premissas. A fragilidade do mercado de trabalho americano se confirma, o Fed retoma a discussão de corte e as taxas longas cedem. No Brasil, a desinflação se consolida e o resultado eleitoral traz sinalização crível de ajuste fiscal estrutural.

  • Inflação: abaixo do cenário-base nos dois países.
  • Juros: ciclo de corte da Selic mais profundo e rápido; fechamento relevante da curva longa brasileira.
  • Câmbio: real mais forte que o projetado.
  • Bolsa: revalorização forte de ativos brasileiros, com destaque para setores domésticos e small caps.
  • Renda fixa: ganho expressivo de marcação em prefixados e indexados à inflação de prazo longo, que é justamente onde estou menos posicionado hoje.
  • Internacional: ampliação da alta com rotação para além de tecnologia.

Registro com honestidade: neste cenário, o posicionamento mais curto que adoto captura menos ganho do que uma carteira alongada. Aceito esse custo em troca de proteção, porque a probabilidade que atribuo a ele não justifica assumir o risco do cenário oposto.

Cenário pessimista, cerca de 25%

Premissas. O Fed sobe juros e sinaliza mais altas, as taxas longas americanas seguem abrindo. No Brasil, a inflação reacelera acima do esperado no quarto trimestre, o quadro fiscal piora e a eleição amplia a incerteza. Os eventos de crédito corporativo se multiplicam.

  • Inflação: IPCA acima de 5% em 2026, com desancoragem parcial das expectativas.
  • Juros: Copom interrompe o ciclo de cortes; curva longa abre ainda mais.
  • Câmbio: desvalorização relevante do real, pressionando inflação e realimentando o ciclo.
  • Crescimento: atividade abaixo de 1% com deterioração do emprego.
  • Bolsa: queda com revisão adicional de lucros.
  • Renda fixa: pós-fixados protegem; prefixados e indexados longos sofrem marcação relevante.
  • Crédito: abertura generalizada de spreads e eventos de inadimplência, com perdas permanentes em carteiras concentradas.
  • Internacional: correção nas bolsas globais por compressão de múltiplos, com ouro e dólar cumprindo papel de proteção.

Trabalho com percentuais aproximados de propósito. A diferença entre 55% e 50% não muda decisão nenhuma; o que muda decisão é o fato de eu atribuir ao cenário pessimista probabilidade maior que ao otimista, e é por isso que a carteira está posicionada com mais liquidez, menos duration e menos risco de crédito do que estaria em um ambiente simétrico.

10. Mapa de riscos

RiscoProbabilidadeImpactoClasses mais afetadasPossível proteção
Fed sobe juros e mantém viés de apertoMédia a altaAltoBolsas globais, emergentes, câmbio, prefixadosDuration curta, caixa, exposição cambial estrutural
Deterioração fiscal brasileiraMédia a altaAltoCurva longa, bolsa, fundos imobiliáriosConcentrar duration no trecho curto, diversificação internacional
Crise de crédito corporativo localMédiaAltoCrédito privado, fundos de crédito, small capsSeletividade de emissor, limites por emissor, títulos públicos
Inflação reacelera no quarto trimestreMédia a altaMédioPrefixados, bolsa, poder de compraIndexados à inflação de prazo longo
Incerteza e ruído eleitoralAltaMédioBolsa Brasil, câmbio, curva longaLiquidez, diversificação de moeda, evitar decisões no calor do evento
Concentração excessiva em tecnologia globalMédiaAltoAções americanas, carteiras internacionaisAções desenvolvidas fora dos EUA, ouro, alternativos
Escalada do conflito no Oriente MédioMédiaMédio a altoPetróleo, inflação global, jurosExposição indireta a energia, ouro
Alta adicional do petróleoMédiaMédioInflação, transporte, margem industrialIndexados à inflação
Desvalorização cambial relevanteMédiaMédio a altoInflação, renda fixa local, poder de compraPortfólio global dolarizado já constituído
Recessão globalBaixa a médiaAltoTodas as classes de riscoCaixa, títulos públicos, ouro
Desaceleração acentuada da ChinaBaixa a médiaMédio a altoCommodities, bolsa Brasil, câmbioDiversificação internacional
Crise institucionalBaixaAltoTodos os ativos brasileirosDiversificação de jurisdição

Os três riscos que merecem maior monitoramento

  1. A função de reação do Fed. É o risco com maior combinação de probabilidade e impacto, e o que menos depende de qualquer coisa que aconteça no Brasil.
  2. O ciclo de crédito corporativo brasileiro. É o risco cuja materialização causa perda permanente, e não apenas oscilação. É também o único desta lista que já está acontecendo, e não sendo antecipado.
  3. A trajetória da dívida bruta. É o risco mais lento e o mais estrutural, e o que define se a parte longa da curva brasileira é oportunidade ou armadilha nos próximos anos.

11. Mapa de oportunidades

OportunidadeClasse de ativoHorizonteConvicçãoCatalisadorPrincipal risco
Travar taxa prefixada no trecho de até três anosRenda fixa BrasilMédioForteContinuidade dos cortes da Selic além do precificadoInflação reacelerando no quarto trimestre
Juro real longo por meio de títulos indexados à inflaçãoRenda fixa BrasilLongoForteAncoragem das expectativas e melhora fiscalVolatilidade de marcação com duration de seis anos
Fundos imobiliários de papel com carrego elevadoFundos listadosMédioModeradaQueda das taxas de juro realQualidade de crédito da carteira do fundo
Ações globais ligadas ao ciclo de tecnologia e infraestrutura digitalRenda variável internacionalLongoForteConversão dos investimentos em receita e caixaConcentração e valuation exigente
Ações de mercados desenvolvidos fora dos Estados UnidosRenda variável internacionalLongoModeradaRotação para além da bolsa americanaCrescimento europeu fraco
Ouro como reserva de valorAlternativosLongoModeradaQuestionamentos sobre a dívida americanaEntrada após forte valorização
Dívida de mercados emergentes em dólarRenda fixa internacionalMédioModeradaEstabilização das Treasuries longasDólar forte e aversão a risco

A assimetria que mais me interessa hoje é a primeira. Quando travo taxa no trecho curto, tenho três desfechos possíveis. Se o Copom cortar como esperado, ganho o carrego contratado. Se cortar mais, ganho também na marcação. Se interromper o ciclo, perco pouco, porque a duration é baixa e o vencimento chega rápido. Poucos momentos oferecem uma distribuição de resultados assim. Isso não é garantia de retorno, é uma relação entre risco e retorno melhor do que a média.

12. Movimentos potenciais por perfil de risco

Não monto carteira fechada aqui, e faço questão de explicar por quê. A alocação certa depende de objetivos, horizonte, patrimônio, compromissos futuros e tolerância a risco, e nada disso cabe em um texto público. O que apresento são direcionamentos, e a referência de mercado que utilizo aparece no gráfico abaixo.

Gráfico 6
Alocacao sugerida por perfil de risco na carteira Brasil de setembro de 2026Barras empilhadas com a alocacao sugerida por classe de ativo para os perfis conservador, moderado e sofisticado. O pos-fixado cai de 71,5 por cento no conservador para 14 por cento no sofisticado, enquanto inflacao e renda variavel Brasil sobem.O mesmo cenário, três respostas diferentes conforme o perfilAlocação sugerida na carteira Brasil de setembro de 2026, em % do portfólio localConservadora71,512,56,0Moderada34,522,511,05,04,513,0Sofisticada14,027,59,515,07,08,09,57,0Pós-fixadoInflaçãoPrefixadoRF internacionalRV BrasilRV internacionalMultimercadosFundos listadosAlternativos

Período: alocação sugerida para setembro de 2026. Unidade: % da carteira local, considerando que a carteira Brasil deveria representar no máximo 85% do patrimônio financeiro do investidor.

Leitura. O pós-fixado sai de 71,5% no perfil conservador para 14,0% no sofisticado. Na direção oposta, os indexados à inflação sobem de 12,5% para 27,5% e a renda variável Brasil sai de zero para 15,0%. Os prefixados ficam entre 6,0% e 11,0% nos três perfis.

Implicação para os investimentos. O mesmo cenário produz três respostas diferentes, e essa é a essência do trabalho. Note que o perfil conservador não fica de fora dos ativos de risco por castigo, e sim porque o retorno-alvo dele é atingível com muito menos volatilidade. Note também que nenhum dos três perfis tem posição concentrada em uma única classe, nem mesmo o conservador, que carrega inflação, prefixado, exposição internacional e fundos listados.

Fonte: Carteiras de Alocação Brasil da XP para setembro de 2026, com metas de retorno de IPCA mais 6% no conservador, IPCA mais 7% no moderado e IPCA mais 8% no sofisticado, e volatilidade-alvo de 1,25%, 4,0% e 8,0%. Reconstrução do gráfico pela Ocre Capital.

Perfil conservador

  • Priorizar: pós-fixado de alta qualidade, com preferência por títulos públicos, e liquidez.
  • Manter: a parcela indexada à inflação, que cumpre papel de preservação de poder de compra, e a exposição internacional mínima, mesmo que pequena.
  • Aumentar gradualmente: prefixados de prazo curto, respeitando o limite da política de investimentos.
  • Reduzir: crédito privado pós-fixado de maior risco.
  • Evitar: renda variável Brasil, alternativos ilíquidos, alongamento de duration.
  • Liquidez adequada: caixa mínimo em torno de 20% da carteira local.
  • Duration tolerável: baixa, com o prefixado em torno de três anos e a parcela de inflação limitada.
  • Principais riscos deste perfil: assumir crédito privado além do necessário para buscar meio ponto de retorno e descobrir tarde que o risco era de perda permanente.

Perfil moderado

  • Priorizar: equilíbrio entre pós-fixado e indexados à inflação, que juntos formam a base do retorno.
  • Manter: multimercados como instrumento de diversificação, renda variável Brasil em posição reduzida e a exposição internacional.
  • Aumentar gradualmente: prefixados de prazo intermediário e a parcela de renda variável internacional.
  • Reduzir: crédito privado pós-fixado.
  • Evitar: concentração em um único fundo ou emissor e alongamento de duration na ponta longa.
  • Liquidez adequada: caixa mínimo em torno de 15%.
  • Duration tolerável: intermediária, com prefixado em torno de três anos e inflação em torno de seis.
  • Principais riscos deste perfil: deslizar para o comportamento de perfil arrojado quando a bolsa sobe e voltar ao conservador quando ela cai, que é a forma mais eficiente de perder dinheiro.

Perfil sofisticado

  • Priorizar: indexados à inflação e renda variável, no Brasil e no exterior, que são as fontes de retorno real de longo prazo.
  • Manter: alternativos, fundos listados e multimercados como camadas de diversificação.
  • Aumentar gradualmente: renda variável internacional em mercados desenvolvidos fora dos Estados Unidos.
  • Reduzir: crédito privado de maior risco, que neste perfil costuma aparecer com peso maior do que deveria.
  • Evitar: small caps brasileiras neste momento do ciclo e concentração em um único tema global.
  • Liquidez adequada: caixa mínimo em torno de 10%.
  • Duration tolerável: mais alta, mas com o prefixado ainda concentrado em três anos.
  • Principais riscos deste perfil: confundir tolerância a risco com tolerância a iliquidez. São coisas diferentes, e a segunda cobra caro quando aparece uma oportunidade e não há caixa.

Um princípio que não abro mão: nenhum destes direcionamentos justifica que um investidor ultrapasse o próprio perfil. Se o retorno desejado só é alcançável com risco acima do perfil, o problema está no objetivo ou no prazo, não na carteira.

13. Rebalanceamentos que podem ser avaliados

Movimento potencialRacionalPerfil aplicávelUrgênciaCondição para execução
Avaliar aumento em prefixados de até três anosPrêmio na curva curta com exposição ao ciclo de cortes da SelicTodos, respeitando o limite de cada políticaGradualEspaço dentro da banda de alocação e aporte novo disponível
Avaliar redução em crédito privado pós-fixadoCiclo de crédito virando com prêmios que podem não compensar o riscoTodosNas próximas semanasVerificar carência, liquidez do papel e custo de saída antes de qualquer movimento
Manter a parcela indexada à inflaçãoPapel estrutural de preservação de poder de compra, com implícita cara no curto prazoTodosSem urgênciaReavaliar se a implícita de prazos curtos voltar para perto de 5%
Avaliar aumento em renda variável internacional fora dos EUAReduzir dependência de um único mercado e de um único temaModerado e sofisticadoGradualUsar aportes novos em vez de girar posição existente
Manter exposição cambial estruturalDiversificação de moeda e jurisdição, não aposta direcionalTodosSem urgênciaNão alterar em função da cotação do dia
Aguardar na ponta longa da curva de jurosPrêmio elevado, mas sem catalisador claro e com risco fiscal em altaTodosSem urgênciaReavaliar diante de sinalização concreta de ajuste fiscal estrutural
Evitar novas alocações em small caps brasileirasSensibilidade elevada ao custo do crédito e à atividade domésticaSofisticadoSem urgênciaReavaliar quando o ciclo de corte de juros estiver claramente consolidado
Manter multimercadosDispersão de cenários valoriza flexibilidadeModerado e sofisticadoSem urgênciaRevisar a correlação real do fundo com a carteira local

Antes de executar qualquer um desses movimentos, é preciso olhar coisas que nenhum relatório de cenário resolve: custo de saída, carência, liquidez do ativo, marcação a mercado no momento da venda, tributação, concentração da carteira, qualidade de crédito, prazo e, acima de tudo, o objetivo do dinheiro. Um rebalanceamento que faz sentido no papel e destrói valor no imposto é um rebalanceamento ruim. Por isso nenhum destes itens é recomendação de execução, e sim ponto de pauta para a conversa individual.

14. O que não fazer neste cenário

  • Perseguir a rentabilidade passada. A tentação deste mês é olhar os 19,97% do índice global de ações em 2026 e concentrar tudo lá. Retorno passado não é fluxo de caixa futuro, e comprar depois da alta reduz o retorno esperado no exato momento em que aumenta o risco.
  • Vender ativos que caíram sem reavaliar fundamentos. Os fundos imobiliários acumulam queda de 0,33% em 2026 justamente enquanto a vacância logística está próxima das mínimas históricas. Vender porque caiu, sem olhar o imóvel e o inquilino, é transformar oscilação em perda.
  • Comprar apenas porque caiu. O inverso do erro anterior. Preço baixo não é sinônimo de ativo barato. Uma empresa com custo de crédito acima do nível da crise de 2015 pode continuar ficando mais barata por bons motivos.
  • Alongar duration sem prêmio suficiente. A ponta longa da curva paga muito, e paga muito porque o risco fiscal aumentou. Alongar prazo agora é aceitar carregar esse risco em troca de um prêmio que pode continuar crescendo antes de cair.
  • Assumir risco de crédito excessivo em busca de meio ponto. É o erro mais caro possível neste momento específico do ciclo, porque a consequência não é volatilidade, é perda permanente.
  • Concentrar patrimônio. Vale para emissor, para fundo, para setor e para tema. Um único evento de crédito ou uma única frustração no ciclo de tecnologia não deveria ser capaz de mudar a vida financeira de ninguém.
  • Eliminar a diversificação internacional. Foi a decisão mais cara de 2026 para quem a tomou. A exposição global existe para reduzir dependência de um país, não para ganhar da variação cambial do trimestre.
  • Aumentar dólar depois de forte valorização. Proteção comprada no pânico custa caro e costuma ser vendida no alívio, cristalizando prejuízo dos dois lados.
  • Reduzir liquidez de forma excessiva. Em um ano de eleição, com ciclo de crédito virando, caixa não é dinheiro parado. É a capacidade de decidir quando aparecer preço.
  • Girar o patrimônio sem necessidade. Cada movimento tem custo, imposto e risco de execução. Movimento não é sinônimo de gestão, e giro raramente melhora o resultado do cliente.
  • Tentar acertar o momento exato. O mês de agosto foi um bom lembrete: o mercado passou duas semanas apostando em corte de juros nos Estados Unidos e terminou o mês precificando 91% de chance de alta até o fim do ano. Quem posicionou a carteira em cima dessa leitura fez duas viradas em trinta dias.
  • Desrespeitar o horizonte e o perfil. Comprar um ativo com prazo de cinco anos com dinheiro que será usado em dois é um erro de planejamento, não de mercado, e nenhum cenário conserta isso.

15. Indicadores para acompanhar até o próximo comitê

DadoPor que importaNível que mudaria o cenárioClasses impactadas
Decisão do Copom de setembroConfirma ou interrompe o ciclo de cortesManutenção da Selic em vez do corte de 0,25 ponto esperadoPrefixados, bolsa, câmbio
IPCA e IPCA-15Define o espaço para cortes adicionaisAcumulado em doze meses voltando acima de 4,50%Prefixados, indexados à inflação
Inflação de serviços e núcleosÉ o componente ligado ao mercado de trabalho, o mais persistenteRetomada da aceleração após dois meses de melhoraToda a renda fixa local
Expectativas de inflaçãoDesancoragem muda a função de reação do Banco CentralExpectativas para 2027 subindo de forma consistenteCurva inteira
Preços de alimentos e energiaReversão do Bônus de Itaipu e efeito do El Niño no quarto trimestreAlta de alimentação no domicílio acima do projetadoPrefixados, consumo
Decisão do Fed de setembroO mercado precifica 67% de chance de altaAlta acompanhada de sinalização de novas altasBolsas globais, emergentes, câmbio
CPI e PCE americanosDeterminam a trajetória da política monetária globalNúcleo do PCE voltando a subir acima de 3,3%Todas as classes
Payroll americanoDois meses seguidos fracos reabrem a discussão de corteNova geração líquida negativa de empregosTreasuries, bolsas, dólar
Treasury de 10 e 30 anosTermômetro do prêmio de prazo global30 anos consolidando acima de 5,50%Renda variável global, emergentes
Curva DI e sua inclinaçãoMostra quanto o mercado cobra para financiar prazo no BrasilTrecho longo acima de 15%Renda fixa local, bolsa, fundos imobiliários
Dados fiscais e execução do orçamentoPrincipal vetor doméstico de longo prazoFrustração relevante de arrecadação ou expansão de despesaCurva longa, câmbio, bolsa
Spreads de crédito e novas recuperações judiciaisAcompanha o ciclo de crédito que está virandoAbertura generalizada de spreadsCrédito privado, fundos de crédito, small caps
Petróleo BrentAfeta inflação global e balança comercial brasileiraRompimento consistente acima de US$ 100Inflação, energia, transporte
CâmbioTransmite choque externo para a inflação localDesvalorização relevante frente à projeção de R$ 5,00Inflação, renda fixa, carteiras internacionais
Fluxo estrangeiro na bolsaPrincipal marginal de preço no mercado brasileiroSaída líquida consistente por vários mesesAções Brasil
Resultados corporativos do terceiro trimestreTesta se a desaceleração já chegou aos lucrosNovo corte relevante nas estimativas de lucro por açãoAções Brasil e globais
Pesquisas eleitorais e agenda pós-eleiçãoDefine o prêmio de risco brasileiro dos próximos anosSinalização concreta sobre reforma estrutural das contas públicasTodos os ativos brasileiros

16. Evolução desde o comitê de agosto

Esta é a seção que dá sentido às outras. Um comitê isolado é uma opinião; uma sequência de comitês é um histórico que pode ser cobrado. Comparo aqui, tema a tema, o que eu escrevia em agosto e o que escrevo agora, separando com cuidado o que mudou de fundamento do que apenas mudou de preço.

TemaVisão em agostoVisão em setembroO que mudouImpacto na estratégia
Ciclo da SelicCiclo encerrado em 14,00%, com o Copom em pausa dependente de dadosNovo corte esperado em setembro e Selic em 13,25% ao fim de 2026Tese invalidada. A pausa não se sustentou um mês. A atividade desacelerou e a inflação cedeu antes do previstoÚnica mudança de alocação do mês: prefixados passam de neutro para positivo, com aumento gradual
Fed e juros longosRisco de alta havia perdido força e sido substituído por risco de prêmio de prazoMercado precifica 67% de chance de alta em setembro, e o prêmio de prazo não cedeuRisco que aumentou. Os dois riscos passaram a conviver, em vez de um substituir o outroMantém duration curta na renda fixa internacional e sustenta a cautela com a ponta longa em qualquer geografia
Crédito privadoDispersão crescente, sem estresse sistêmico. Cautela apenas no crédito de maior riscoEventos de crédito entre grandes empresas, alta de recuperações judiciais, custo do crédito para empresas acima do nível de 2015 e 2016Risco que aumentou de forma material. Deixou de ser tendência de fundo e virou fato em cursoSemáforo de amarelo para vermelho e convicção na cautela subindo de duas para quatro estrelas
Petróleo e Oriente MédioTrégua rompida, bloqueio do Bab-el-Mandeb, Brent perto de US$ 80 depois de superar US$ 100Cessar-fogo expirado, pressão migrando do campo militar para o econômico, Brent perto de US$ 90Mudança de natureza. O risco de interrupção física cedeu, mas o patamar de preço subiuMantém exposição indireta a energia e reforça o petróleo como vetor de inflação a monitorar no quarto trimestre
Fiscal brasileiroAjuste sem consenso político, dívida bruta caminhando para 88,0% do PIB em 2027Mesmo quadro, com 87,9% em 2027 e o Tesouro elevando a fatia pós-fixada da dívida no Plano Anual de FinanciamentoTese confirmada. Elemento novo: mais dívida indexada à Selic torna a despesa com juros mais sensível à própria política monetáriaNenhuma mudança. Segue como a razão de concentrar duration no trecho curto e intermediário
Ações americanas e tema de IACorreção de cerca de 8,3% no Nasdaq abria janela tática de entrada, sem alterar a tese estruturalNovas máximas, com lucro por ação crescendo cerca de 50% contra expectativa de 22,6%Tese confirmada e já capturada. A janela de entrada se fechou pela própria altaMantém a convicção em quatro estrelas, mas o argumento agora é o lucro entregue, não o desconto de preço
Bolsa brasileiraAlta de 3,5% em julho puxada por petróleo, sem mudança de fundamento. Não perseguir a altaTemporada fraca, com 41% das empresas superando estimativas de lucro e corte de 2,8% nas projeções de lucro para 2026Tese de cautela confirmada. O fundamento não acompanhou o preço, exatamente como se supunhaMantém abaixo da alocação estratégica, com aportes graduais e seletivos
Fundos imobiliáriosPositivo e seletivo, com reprecificação recente criando entrada mais atrativaNeutro, com o IFIX em queda de 0,33% no ano e preferência por fundos de papelConvicção reduzida. A reprecificação esperada não veio, porque o juro real seguiu alto por mais tempoMantém a posição e a preferência por papel, mas deixa de tratar como oportunidade de aumento
Câmbio e proteçãoAvaliar aumento gradual de proteção cambial táticaManter a proteção estrutural, sem movimentos táticosMudança de ênfase. Os dois vetores que sustentam o real seguem de pé; o que mudou é que o risco relevante agora vem do Fed, e proteção comprada no susto custa caroNenhuma alteração de exposição; muda a instrução sobre quando mexer nela
Comércio global e tarifasNova rodada de tarifas americanas sob a Seção 301, com alíquota adicional de 25% ao Brasil e ampla lista de exceçõesOs materiais de setembro não trazem atualização sobre o temaSem informação nova. Não é o mesmo que dizer que o risco desapareceuPermanece no radar de monitoramento, sem alteração de alocação

Fonte: Comitê Mensal de Investimentos Ocre Capital de agosto de 2026 e materiais de setembro de 2026 já citados.

O que aprendi com o mês

A tese que errei. Em agosto eu tratava o ciclo de cortes como encerrado em 14,00%. Errei, e errei rápido. O que faltou não foi ler o Copom, foi dar peso suficiente à velocidade com que a atividade doméstica estava perdendo tração: o consumo das famílias já havia recuado no segundo trimestre, e eu li isso como confirmação da desaceleração sem tirar dali a conclusão de que ela abriria mais espaço monetário. É uma correção de leitura que reconheço e que muda posição de carteira, não só narrativa.

A tese que acertei e que já rendeu. A cautela com a bolsa brasileira. Em agosto o Ibovespa havia subido 3,5% por um fator específico, o petróleo, e eu disse que aquilo era mudança de preço e não de fundamento. A temporada de resultados do segundo trimestre confirmou: apenas 41% das empresas superaram as estimativas de lucro e as projeções para 2026 foram cortadas. Não ter perseguido aquela alta foi a decisão certa.

A tese que estava parcialmente certa. A janela de entrada em tecnologia americana depois da correção do Nasdaq. Ela existia e se fechou com a recuperação, mas quem entrou seguindo a leitura de agosto capturou o movimento. O que mudou é o argumento: em agosto o motivo era o desconto; hoje é o lucro. Quando a razão para carregar um ativo troca de lugar, o risco também troca.

Riscos que aumentaram: o crédito privado brasileiro, que foi de amarelo a vermelho, e o Fed, que voltou a embutir risco de alta sem abrir mão do prêmio de prazo.

Riscos que diminuíram: o de interrupção física do fluxo de petróleo, com a disputa migrando para o campo econômico, e o de o Copom ser forçado a interromper os cortes, que era premissa do cenário pessimista de agosto e não se materializou.

Oportunidades que deixaram de existir: a entrada com desconto em tecnologia americana e a reprecificação de curto prazo em fundos imobiliários.

Oportunidades que surgiram: o prefixado de até três anos, que em agosto eu classificava como neutro e pedia paciência, e que agora combina prêmio elevado com exposição a um ciclo de cortes maior do que o precificado.

Por que as probabilidades dos cenários mudaram. Em agosto eu trabalhava com 50% para o cenário-base, 15% para o otimista e 35% para o pessimista. Agora uso 55%, 20% e 25%. A redução do pessimista não é otimismo: é a constatação de que quatro das cinco premissas daquele cenário não se materializaram no mês, do agravamento do conflito ao Copom interrompendo os cortes, passando pela deterioração fiscal acelerada e pela ampliação das tarifas. A premissa que sobreviveu, a curva longa americana continuando a abrir, é justamente a que piorou, e por isso ela subiu para o primeiro lugar do mapa de riscos. Reduzir a probabilidade de um cenário e elevar a importância do risco que restou dentro dele não é contradição, é foco.

17. Conclusão do comitê

1. Qual é a leitura central do cenário? O mundo está repreçando o custo do dinheiro longo por razões estruturais, e não conjunturais. Enquanto isso, o Brasil vive um momento cíclico favorável, com desinflação e cortes de juros, dentro de um quadro estrutural que continua sem solução. Os dois movimentos convivem, e é por isso que a resposta correta não é otimismo nem pessimismo, é seletividade de prazo.

2. O ambiente ficou mais favorável ou menos favorável? Neutro, com composição diferente. Melhorou para quem recebe juros no Brasil em prazos curto e intermediário. Piorou para quem carrega duration longa no exterior e para quem depende de crédito privado.

3. Onde estão os melhores prêmios de risco? Na renda fixa brasileira de até três anos, nas taxas reais de prazo longo para quem tem horizonte, e nas ações globais ligadas ao ciclo de investimento em tecnologia, com a ressalva da concentração.

4. Onde é preciso ter maior cautela? Crédito privado de maior risco, ponta longa da curva brasileira e small caps domésticas. São três lugares onde o prêmio parece atraente e o risco está aumentando ao mesmo tempo.

5. É momento de aumentar, manter ou reduzir risco? Manter, com dois ajustes de composição: mais prefixado curto, menos crédito privado. O nível total de risco da carteira não muda.

6. Quais movimentos podem ser avaliados? Os oito listados na seção 13, todos graduais, nenhum com urgência imediata.

7. O que não deve ser alterado? A exposição internacional, a proteção cambial estrutural, a parcela indexada à inflação e o caixa mínimo de cada perfil. Essas quatro coisas são estrutura, e estrutura não se mexe por causa de um mês.

8. Qual é a principal mensagem para os clientes? Em um mês em que o mercado mudou de opinião duas vezes sobre o Fed, a carteira bem construída não precisou mudar de opinião nenhuma vez. Fazer pouco, com critério, continua sendo a decisão mais difícil e a mais rentável.

18. Conversa com você investidor

O texto abaixo é o roteiro que uso nas reuniões, escrito para ser lido em voz alta em cerca de cinco minutos. Ele consolida o trimestre, e não apenas o mês.

Vou começar pelo que interessa: sua carteira não precisa mudar de rumo por causa do que aconteceu no último trimestre. Vou te explicar por quê, e depois falo dos dois ajustes finos que fazem sentido.

O que aconteceu. O tema do período foi o preço dos juros de prazo longo no mundo. Os títulos do governo americano de trinta anos passaram de 5,30%, coisa que não se via há cerca de vinte anos. O Tesouro americano tentou segurar isso comprando títulos de volta, e o efeito durou menos de um dia. Isso é importante porque mostra que a causa não é técnica, é de fundo: os governos precisam rolar muita dívida e, ao mesmo tempo, as grandes empresas de tecnologia entraram na fila pedindo dinheiro emprestado em uma escala que não existia. Só em 2026, elas emitiram o equivalente a 44% do que o Tesouro americano emitiu em prazos longos. Quando tem mais gente disputando o mesmo dinheiro, o dinheiro fica mais caro para todo mundo.

O que mudou no cenário. Aqui no Brasil, três coisas. A economia desacelerou: o crescimento caiu pela metade em relação ao trimestre anterior e o consumo das famílias recuou. A inflação melhorou, embora parte dessa melhora venha de fatores temporários, como o bônus na conta de luz, que vai se reverter. E o Banco Central deve continuar cortando juros, mas em ritmo lento e com os cortes maiores ficando para depois das eleições. Lá fora, a economia americana segue firme, os lucros das empresas vieram muito acima do esperado, mas o banco central de lá voltou a falar em subir juros. Ou seja: o mundo ficou mais caro e o Brasil ficou mais barato ao mesmo tempo.

Como isso afeta seus investimentos. De forma direta e, no geral, favorável. A taxa que você consegue travar hoje em renda fixa está bem mais alta do que estava seis meses atrás, cerca de 1,2 ponto percentual acima nos prazos mais longos. Isso significa que o mesmo risco de antes está pagando mais. Do lado internacional, sua exposição global foi o que mais rendeu no ano, e a razão é boa: as empresas realmente entregaram lucro, não foi só otimismo de mercado.

Os riscos que estou monitorando. Três. O primeiro é o banco central americano subir juros, o que pressiona tudo. O segundo, e o que mais me preocupa no Brasil, é o crédito de empresas: aumentaram as recuperações judiciais e o custo do crédito para empresas está acima do nível da crise de 2015. Por isso estou mais rigoroso do que nunca com o que entra na sua carteira nessa categoria. O terceiro é a dívida pública, que deve sair de 78,7% para quase 88% do tamanho da economia até 2027. Nenhum desses riscos exige que a gente faça algo hoje. Todos exigem que a gente esteja atento.

As oportunidades. A principal é travar taxa em prazos de até três anos. Se os juros caírem como esperado, você ganha o que contratou. Se caírem mais, você ganha também na valorização do papel. Se pararem de cair, você perde pouco, porque o prazo é curto. Poucas situações oferecem essa combinação. A segunda é manter sua exposição internacional, que continua sendo a parte da carteira com melhor perspectiva de longo prazo.

Por que vamos manter a estratégia. Porque nada do que aconteceu mudou os fundamentos dos seus objetivos. Vou propor dois ajustes: aumentar um pouco a parcela de renda fixa prefixada de prazo curto, aproveitando o prêmio, e reduzir gradualmente crédito privado de maior risco, sempre olhando antes o custo de saída e o imposto. Nada disso tem pressa.

A mensagem de longo prazo. Em um trimestre em que o mercado mudou de opinião duas vezes sobre a mesma coisa, sua carteira não precisou mudar nenhuma. Isso não é sorte. É o resultado de ter sido construída para o seu horizonte e não para a manchete da semana. Meu trabalho não é acertar o próximo movimento do mercado, é garantir que nenhum movimento do mercado seja capaz de comprometer o seu plano.

19. Resumo

Cenário

  • Formação de um regime de juros longos estruturalmente mais altos no mundo, puxado por déficits fiscais, rolagem de dívida e demanda de capital para inteligência artificial.
  • Brasil com desinflação e desaceleração graduais, que abrem espaço para cortes da Selic rumo a 13,25% no fim de 2026.
  • Lucros corporativos globais surpreendendo para cima e sustentando a renda variável internacional.

Riscos

  • Fed com viés de alta, com 67% de probabilidade precificada para a reunião de setembro.
  • Ciclo de crédito corporativo brasileiro virando, com custo do crédito acima do nível de 2015 e 2016.
  • Dívida bruta caminhando de 78,7% para 87,9% do PIB até 2027.

Oportunidades

  • Prefixados de até três anos, com a curva cerca de 120 pontos-base acima de seis meses atrás.
  • Taxas reais de prazo longo, para quem tem horizonte compatível.
  • Renda variável internacional, com rotação parcial para mercados desenvolvidos fora dos Estados Unidos.

Posicionamento

  • Pós-fixado sobrealocado, liquidez preservada.
  • Prefixado subindo gradualmente, com duration ajustada de quatro para três anos.
  • Crédito privado em redução; renda variável Brasil abaixo da alocação estratégica.

Mensagem principal

O prêmio melhorou na renda fixa brasileira de prazo curto e o risco aumentou no crédito privado, e nenhuma dessas duas coisas exige mudar a estrutura de uma carteira bem construída.

20. Deliberações do comitê

Manter

  • Caixa e pós-fixados. Carrego elevado com liquidez. Todos os perfis, horizonte curto. Mudaria se a Selic caísse muito mais rápido que o projetado.
  • Títulos indexados à inflação, com duration em torno de seis anos. Preservação de poder de compra e taxa real atrativa. Todos os perfis, horizonte longo. Mudaria se a inflação implícita de prazos curtos recuasse para perto de 5%.
  • Exposição internacional e proteção cambial estrutural. Diversificação de moeda e jurisdição. Todos os perfis, horizonte longo. Não muda por variação de cotação.
  • Fundos imobiliários, com preferência por fundos de papel. Fundamento operacional melhor que o preço. Moderado e sofisticado, horizonte médio e longo. Mudaria com deterioração da qualidade de crédito das carteiras.
  • Multimercados macro e long and short. Dispersão de cenários valoriza flexibilidade. Moderado e sofisticado, horizonte médio. Mudaria com correlação alta persistente com a carteira local.

Monitorar

  • Ponta longa da curva de juros brasileira. Prêmio elevado sem catalisador. Todos os perfis. Passaria a avaliar aumento diante de sinalização concreta de ajuste fiscal estrutural.
  • Ações Brasil. Valuation atrativo contra revisão negativa de lucros. Moderado e sofisticado, horizonte longo. Reavaliar após a temporada do terceiro trimestre e a definição eleitoral.
  • Mercados emergentes. Carrego bom na dívida, ações dependentes do ciclo global de juros. Moderado e sofisticado. Reavaliar com estabilização das Treasuries longas.
  • Tarifas e comércio global. Tema aberto no comitê de agosto, com a nova rodada americana sob a Seção 301 e alíquota adicional ao Brasil. Os materiais de setembro não trazem atualização, o que não significa que o risco tenha desaparecido. Todos os perfis. Reavaliar diante de ampliação das medidas ou de dado novo sobre o impacto nas exportações.

Avaliar aumento

  • Prefixados de até três anos. Prêmio na curva curta com exposição ao ciclo de cortes. Todos os perfis, dentro do limite de cada política, horizonte médio. Condição: espaço na banda de alocação e preferência por aporte novo. Reverteria diante de reaceleração clara da inflação.
  • Renda variável internacional em desenvolvidos fora dos Estados Unidos. Reduz dependência de um único mercado e de um único tema. Moderado e sofisticado, horizonte longo. Condição: usar aportes novos em vez de girar posição existente.

Avaliar redução

  • Crédito privado pós-fixado, especialmente o de maior risco. Ciclo de crédito virando, prêmios que podem não compensar risco de crédito, liquidez e estrutura. Todos os perfis, horizonte médio, urgência nas próximas semanas. Condição: verificar carência, liquidez e custo de saída antes de qualquer movimento. Reverteria com abertura relevante de spreads que voltasse a remunerar o risco.

Evitar

  • Novas alocações em small caps brasileiras. Sensibilidade elevada ao custo do crédito e à atividade doméstica. Apenas perfil sofisticado consideraria, horizonte longo. Reavaliar quando o ciclo de corte de juros estiver claramente consolidado.
  • Alongamento de duration sem prêmio adicional. O prêmio da ponta longa reflete risco fiscal crescente. Todos os perfis. Reavaliar com melhora concreta da perspectiva fiscal.
  • Concentração acima dos limites por emissor, fundo, setor ou tema. Vale inclusive para o tema de inteligência artificial nas carteiras internacionais. Todos os perfis, permanente.
  • Novas alocações relevantes em FIAgro. Decisão herdada do comitê de agosto e mantida: os desafios de crédito no agronegócio seguem sem visibilidade de normalização, e o quadro geral de crédito corporativo descrito nesta edição reforça a cautela. Todos os perfis, horizonte curto e médio. Reavaliar diante de melhora visível nos indicadores de crédito do setor.

Quer discutir o que isso significa para a sua carteira?

Este material analisa o cenário, não carteiras individuais. A tradução disso para o seu caso depende dos seus objetivos, do seu horizonte e do seu perfil de risco, e essa conversa é individual.

Sou Sérgio Ferreirinha, CFP, sócio da Ocre Capital, uma assessoria de investimentos credenciada à XP. Meu modelo de remuneração é fee-based, com honorário ligado ao patrimônio assessorado e comissões recebidas pela distribuição de produtos devolvidas ao cliente. Você pode ver quem eu sou e como funciona o atendimento antes de qualquer conversa.

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Aviso importante. Este material tem caráter exclusivamente informativo e educacional e reflete a opinião pessoal do autor na data de sua publicação. Não constitui recomendação individual de investimento, oferta ou solicitação de compra ou venda de qualquer ativo, nem análise de valores mobiliários nos termos da Resolução CVM nº 20/2021. As informações foram elaboradas a partir de fontes públicas e de materiais de terceiros considerados confiáveis, incluindo o Relatório Mensal de Alocação e as Carteiras de Alocação da XP Investimentos referentes a setembro de 2026, com data-base entre 28/08/2026 e 02/09/2026, além de dados do IBGE, do Banco Central do Brasil, do Tesouro dos Estados Unidos, da Bloomberg e da Refinitiv. A seção de evolução das teses compara esta edição com o Comitê Mensal de Investimentos da Ocre Capital referente a agosto de 2026.

Projeções e cenários são estimativas sujeitas a erro e podem não se concretizar. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura. Nenhum trecho deste material constitui promessa ou garantia de retorno. Todo investimento envolve risco, inclusive de perda do capital investido. Antes de investir, verifique a adequação do produto ao seu perfil de investidor e leia os documentos oficiais de cada ativo.

Os gráficos apresentados foram reconstruídos pela Ocre Capital a partir dos dados divulgados nos materiais citados, com a fonte original indicada em cada figura. Nos gráficos das curvas de juros e de inflação implícita, os valores foram lidos de forma aproximada a partir dos gráficos originais e servem para ilustrar a direção e a magnitude do movimento, não para uso como série de dados.

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