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Consórcio não tem juros. Tem R$ 102.500.

Consórcio é vendido como crédito sem juros. A conta de um consórcio imobiliário de R$ 500 mil mostra o que a taxa de administração custa, e quem chega antes ao imóvel.

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“Consórcio não tem juros.” A frase é o argumento de venda inteiro, aparece no primeiro minuto de qualquer conversa com um vendedor, e ela é tecnicamente verdadeira. Não existe banco emprestando dinheiro ali, e sem empréstimo não há juro no sentido contratual do termo.

O problema é que dinheiro tem preço mesmo quando ninguém chama esse preço de juro. Num consórcio imobiliário de R$ 500 mil com taxa de administração de 20%, você paga R$ 602.500 para receber R$ 500.000. São R$ 102.500, ou 20,5% do imóvel. Antecipo a conclusão para você decidir se vale ler o resto: o consórcio não é uma roubada, mas também não é de graça, e o que ele vende de verdade não é ausência de custo. É a chance de chegar antes.

Por que “sem juros” é tecnicamente verdade

Num financiamento, um banco entrega dinheiro que é dele e cobra pelo tempo em que ficou sem esse dinheiro. Isso é juro.

Num consórcio não existe essa figura. Um grupo de pessoas coloca dinheiro todo mês num caixa comum e, a cada assembleia, uma ou mais são contempladas e sacam o crédito. O dinheiro que você recebe é dos outros consorciados, e o dinheiro que você paga depois é dos próximos. A administradora não empresta nada. Ela organiza a fila.

Até aqui, o vendedor está certo. O que ele não costuma dizer com a mesma clareza é que organizar a fila é um serviço, e serviço se cobra.

A Lei 11.795/2008 é quem rege o sistema de consórcios no Brasil. O artigo 5º, § 3º, define a taxa de administração como a remuneração da administradora pela formação, organização e administração do grupo. O artigo 27 manda que o valor seja o que estiver no contrato de participação.

Leia de novo: o que estiver no contrato. Não existe teto legal para a taxa de administração de consórcio.

Isso é diferente do que acontece em outros produtos vendidos no mesmo balcão. Na previdência privada, por exemplo, a SUSEP limita o carregamento a 10%, e mesmo assim o que as taxas levam em 30 anos é o suficiente para mudar a aposentadoria de alguém. No consórcio, o limite é a negociação.

E não é preciso ir longe para saber quanto se cobra. As faixas estão publicadas pelos próprios vendedores. O C6 Bank informa no material dele que a taxa fica entre 15% e 20% para imóveis, pode chegar a 25% ou 26% para automóveis e varia de 18% a 25% para motos, além de um fundo de reserva de cerca de 0,5%.

Repare no que essa faixa significa: a mesma cota, com a mesma mecânica, pode custar 15% ou 26% dependendo de onde você assinar. Essa diferença não tem nada a ver com o bem que você quer. Tem a ver com quem te atendeu.

A conta de um consórcio de R$ 500 mil

Vamos usar números redondos e premissas declaradas, para você poder refazer a conta com os seus.

Gráfico comparando o crédito de R$ 500.000 recebido no consórcio com o total pago de R$ 602.500, uma diferença de R$ 102.500
Construção ilustrativa. Taxa de administração de 20%, dentro da faixa que as administradoras publicam para imóvel.
ItemValor
Crédito contratadoR$ 500.000
Taxa de administração (20%)R$ 100.000
Fundo de reserva (0,5%)R$ 2.500
Total a pagarR$ 602.500
Prazo200 meses
ParcelaR$ 3.012,50

Você entrega R$ 602.500 e recebe R$ 500.000. A diferença de R$ 102.500 é o preço do serviço, e ele não desaparece por não se chamar juro. Em cada parcela de R$ 3.012,50, R$ 512,50 vão para a administradora e para o fundo de reserva, e R$ 2.500 vão para o caixa que compra o imóvel de alguém.

Essa conta ainda é otimista. Não inclui seguro, que muitos grupos cobram, e não inclui reajuste. Pela própria lei, no artigo 27, § 1º, as obrigações do consorciado são expressas em percentual do preço do bem, então quando o imóvel de referência sobe, a sua parcela sobe junto. Isso protege o seu crédito da inflação, o que é bom, mas também significa que a parcela que cabe no bolso hoje não é a mesma daqui a dez anos.

O custo não é o problema inteiro. O sorteio é

Se a conversa parasse nos R$ 102.500, o consórcio seria só um crédito caro. Mas tem uma segunda variável, e ela é a que quase ninguém coloca na planilha: quando você recebe.

Pelo artigo 22, § 1º da lei, a contemplação acontece por sorteio ou por lance. Sorteio é loteria. Lance é dinheiro. Quem não tem dinheiro para dar lance depende da loteria.

Então a pergunta certa não é “quanto custa”. É “quanto custa e quando chega”. A comparação honesta é com alguém que tem a mesma saída de caixa mensal e simplesmente guarda o dinheiro rendendo.

Gráfico de barras comparando em quantos meses cada caminho chega ao imóvel de R$ 500 mil: contemplação média no mês 100, poupança a 6% real no mês 122, sem render nada no mês 166, último contemplado no mês 200
Tudo em termos reais. 6% ao ano é premissa conservadora: o Tesouro IPCA+ 2035 pagava mais que isso quando este texto foi escrito.

Guardando os mesmos R$ 3.012,50 por mês a 6% reais ao ano, você junta os R$ 500 mil no mês 122. A contemplação média por sorteio num grupo de 200 meses cai por volta do mês 100.

Ou seja: na média, o consórcio antecipa a sua entrada no imóvel em cerca de 22 meses, e você paga R$ 102.500 por essa antecipação. Dá R$ 4.659 por mês antecipado. Não é um roubo, é um preço. A pergunta é se esse preço faz sentido para você.

Só que média é uma palavra perigosa aqui. Se a contemplação por sorteio se espalha ao longo dos 200 meses, cerca de 39% do grupo é contemplado depois do mês 122. Essas pessoas pagaram os R$ 102.500 e chegaram ao imóvel depois de quem simplesmente guardou o dinheiro. Pagaram pela antecipação e receberam atraso.

E esse número é otimista, porque tratei o sorteio como uniforme. Na prática, os lances antecipam quem tem caixa e empurram para trás quem só depende da sorte. Quem entra no consórcio sem dinheiro para dar lance está na metade de baixo dessa fila com mais frequência do que a média sugere.

O que acontece se você desistir

Dezesseis anos é muito tempo. Emprego muda, casamento muda, plano muda. Então a pergunta prática é o que acontece com quem para de pagar no meio.

O artigo 30 da lei responde. O consorciado excluído tem direito à restituição do que pagou ao fundo comum, calculada pelo percentual amortizado do valor do bem, mais os rendimentos financeiros proporcionais. Leia com atenção o que ficou de fora dessa frase: a taxa de administração já paga não volta.

E tem o quando. Pelo artigo 32, a administradora tem até 120 dias após a última assembleia de contemplação para encerrar o grupo e prestar contas, discriminando o que sobrou para cada consorciado e para cada excluído. Na prática, quem desiste no mês 40 de um grupo de 200 pode esperar o grupo inteiro terminar para receber de volta uma parte do que colocou.

Isso não é letra miúda escondida. Está na lei, é público, e mesmo assim é a informação que menos aparece na mesa de venda.

Quando o consórcio faz sentido

Este site cobra transparência, não vende indignação. Existem situações em que o consórcio é a escolha certa, e ignorar isso seria o mesmo tipo de meia verdade que o vendedor conta.

  • Você sabe que não vai poupar sozinho. A comparação com o poupador disciplinado só vale se o poupador existir. Se o histórico diz que o dinheiro some todo mês, a parcela obrigatória tem valor real, e o custo dela é o preço da disciplina que você não tem.
  • Você não passa na análise de crédito do banco. Consórcio não faz a mesma exigência de um financiamento na largada. Para autônomo com renda irregular, às vezes é a única porta.
  • Você tem caixa e vai dar lance de propósito. Aí não é loteria, é compra planejada: você usa o consórcio como um jeito de comprar à vista com desconto de tempo, sabendo o custo desde o início.
  • O bem não tem data. Trocar de carro em algum momento dos próximos cinco anos é diferente de precisar do apartamento antes do nascimento do filho.

E quando não faz sentido: quando você precisa do bem em data certa, quando entrou achando que era de graça, e quando a alternativa real não era guardar dinheiro, era continuar pagando aluguel enquanto o imóvel sobe. Esse último caso merece a conta completa, que eu fiz em o custo real de comprar imóvel para alugar.

As três perguntas antes de assinar

Não precisa de planilha. Precisa de três respostas por escrito, antes da assinatura.

  1. Qual é o percentual total da taxa de administração, e onde ele está escrito no contrato? Não aceite “está diluído na parcela”. Peça o número. Se estiver acima de 20% para imóvel, você está no topo da faixa que o próprio setor publica.
  2. Existe fundo de reserva e seguro? De quanto? São linhas separadas da taxa de administração e entram na sua parcela do mesmo jeito.
  3. Se eu desistir no mês 40, quanto volta, calculado como, e em que data eu recebo? A resposta correta cita o percentual amortizado e o encerramento do grupo. Se a resposta for vaga, ela já é a resposta.

E uma quarta, que serve para qualquer produto financeiro que te ofereçam: quanto você ganha para me vender isto? Quem vende consórcio é remunerado pela venda da cota. Isso não torna a pessoa desonesta, mas explica por que a conversa começa em “sem juros” e não em “custa 20,5% do imóvel”. É a mesma lógica que aparece em quanto você paga de verdade na sua carteira.

Já tem um consórcio e quer saber o que ele custa?

Me mande o contrato ou o extrato da cota e eu devolvo a conta fechada: quanto da sua parcela vai para a administradora, quanto já foi embora em taxa e quanto volta se você desistir. Sem venda de produto, porque não vendemos produto nenhum.

Perguntas frequentes

Consórcio tem juros?

Não no sentido contratual, porque não há empréstimo: o dinheiro vem do próprio grupo. Mas há custo. A taxa de administração e o fundo de reserva fazem você pagar mais do que o valor do bem. No exemplo deste artigo, R$ 602.500 para receber R$ 500.000.

Qual é a taxa de administração de um consórcio?

Não há teto legal. As faixas publicadas pelo setor ficam entre 15% e 20% para imóveis, podem chegar a 25% ou 26% para automóveis e variam de 18% a 25% para motos, mais um fundo de reserva de cerca de 0,5%. O número do seu contrato é o que vale.

Consórcio é melhor que financiamento?

Depende de quando você precisa do bem. O financiamento entrega o imóvel hoje e cobra juro por isso. O consórcio cobra menos, mas entrega numa data que você não controla. Comparar só as taxas, sem comparar as datas, leva à conclusão errada.

Dá para desistir do consórcio e receber o dinheiro de volta?

Parte dele. Pelo artigo 30 da Lei 11.795/2008, o excluído recebe o que pagou ao fundo comum pelo percentual amortizado, mais rendimentos. A taxa de administração já paga não é devolvida, e o recebimento costuma acontecer no encerramento do grupo.

Vale a pena dar lance no consórcio?

O lance antecipa a contemplação, o que reduz o tempo de espera, mas é dinheiro seu adiantado sem contrapartida imediata. Faz sentido para quem tem caixa e está usando o consórcio como compra planejada. Faz menos sentido para quem entrou justamente por não ter caixa.


Fontes


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Quem escreve

Sérgio Ferreirinha

Planejador financeiro pessoal certificado CFP®, assessor de investimentos com certificação Ancord, formado em administração pela PUC-SP.

Mais de 15 anos no mercado financeiro, com passagens por Interfloat, XP, Guide Investimentos e Banco Safra, em posições comerciais e de liderança ligadas a investimentos e expansão de negócios. Cofundador da Ocre Capital, assessoria de investimentos credenciada à XP que trabalha no modelo fee-based: a remuneração está ligada ao patrimônio assessorado e as comissões recebidas pela distribuição de produtos são devolvidas ao cliente.

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