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Quando o fee-based vale a pena, e quando ele é só um custo mais caro

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A conta que decide o seu caso muda conforme o cenário, e é por isso que publico todo mês a minha leitura completa de juros, inflação e alocação no Comitê Mensal de Investimentos.

ragraph”>O Brazil Journal publicou hoje uma reportagem sobre a migração do mercado brasileiro para o modelo fee-based, com números de adoção das principais redes e depoimentos de quem está tocando essa mudança. A parte mais útil dela não é a que defende o modelo. É a que diz onde ele não compensa.

Antes de seguir, o que você precisa saber sobre quem escreve. Eu trabalho em fee-based. Se você contratar a Ocre Capital, é assim que eu sou remunerado. Vou defender o modelo onde ele merece ser defendido e dizer, com a mesma clareza, onde ele é apenas um custo mais caro com nome bonito. Se você só quisesse a versão vendida, já teria encontrado ela em outro lugar.

1. O que a reportagem diz, e por que ela está certa

O quadro que a reportagem monta é o de um mercado em transição, não de um mercado convertido. Na XP, 26% da custódia já está em fee-based. Na Monte Bravo, 44% dos R$ 45 bilhões sob custódia. A EQI, com R$ 57 bilhões, segue majoritariamente comissionada. A W1, com R$ 3,6 bilhões, cobra o planejamento financeiro à parte, em percentual da renda mensal do cliente. Lá fora, a Edward Jones saiu de US$ 1 trilhão para US$ 2,5 trilhões entre 2016 e 2026 fazendo essa transição.

O honorário praticado no Brasil, segundo a reportagem, fica entre 0,4% e 1% do patrimônio ao ano. E uma simulação da AAWZ Partners, citada na matéria, estima que trocar parte dos produtos caros por alternativas baratas em um cenário de migração média reduziria o custo total da carteira entre 12% e 25%, assumindo honorário de 0,6% e a alocação típica de um cliente XP.

Agora a parte que interessa mais, e que raramente aparece na boca de quem vende o modelo: para o investidor conservador, com dinheiro parado em Tesouro Direto e renda fixa carregada até o vencimento, o comissionado sai mais barato. Não é uma concessão retórica. É aritmética, e vale a pena entender por quê.

2. A pergunta que fica em aberto

A discussão entre os dois modelos costuma ser tratada como discussão de princípio. Ela não é. É uma comparação entre dois números:

  • Quanto a sua carteira paga hoje para a cadeia de distribuição, embutido no preço dos produtos.
  • Quanto custaria o honorário, escrito em contrato antes de qualquer recomendação.

O problema é que o primeiro número é invisível e o segundo é explícito. Comparar um número que você não conhece com um número que está na sua frente é o que faz o honorário parecer caro. Ele parece caro porque é o único que você consegue ver.

Ninguém escolhe entre modelos de remuneração. Escolhe entre dois números, e um deles está escondido.

3. A conta que decide

A regra cabe em uma linha: o fee-based compensa quando o que a sua carteira já gera para a cadeia de distribuição passa do honorário que te cobrariam. Abaixo disso, não compensa, e ponto.

A tabela abaixo é uma ilustração, com as premissas declaradas linha a linha. Elas vêm das faixas que documentei no artigo sobre quanto o seu assessor ganha com você, e não são média de mercado.

Perfil de carteiraGera hoje ao anoHonorário de 0,60%Sai na frente
Só Tesouro Selic0,05%0,60%Comissionado
Renda fixa comprada e carregada até o vencimento0,25%0,60%Comissionado
Fundos e previdência, pouca movimentação0,85%0,60%Fee-based
Estruturados, previdência e giro de renda fixa1,30%0,60%Fee-based
Ilustração. Premissas no texto e no gráfico. Não é média de mercado.
Gráfico comparando o custo anual estimado de quatro perfis de carteira com uma linha de honorário fee-based de 0,60% ao ano: 0,05% em Tesouro Selic, 0,25% em renda fixa carregada, 0,85% em fundos e previdência e 1,30% em estruturados com giro
Ilustração com premissas declaradas no gráfico. Não substitui o seu extrato trimestral de remuneração.

Três leituras que importam mais que os números em si.

Para quem tem Tesouro Selic e CDB carregado, o comissionado é imbatível. Ele custa quase nada porque quase nada é gerado. Qualquer assessor fee-based que tente te convencer do contrário está fazendo exatamente o que critica no outro modelo: colocando a própria remuneração na frente da sua conta.

A virada acontece com a complexidade, não com o tamanho do patrimônio. R$ 5 milhões parados em Tesouro Selic geram menos que R$ 500 mil bem distribuídos entre fundos, previdência e um COE. O que puxa o custo para cima é a quantidade de produtos que remuneram, não o zero a mais no extrato.

O custo comissionado não é fixo, e é aí que mora a diferença. Ele sobe toda vez que alguém decide que você precisa de mais um produto. O honorário não muda por isso. Quando o mercado fala em alinhamento, é disso que está falando: no fee-based, a recomendação errada continua sendo ruim para você, mas deixa de ser boa para quem recomenda.

4. Onde achar o seu número de verdade

Toda a conta acima vira exercício de imaginação enquanto você não tiver o seu próprio número. E ele existe, por norma, desde 2024. A Resolução CVM 179 obriga a instituição a disponibilizar ao investidor um extrato trimestral com os valores de remuneração auferidos no período, além de informar valores e percentuais no momento de investir ou resgatar.

ACORDA: o seu número em vinte minutos

  1. Entre na área logada da sua corretora e procure por “transparência de remuneração” ou “extrato de remuneração”.
  2. Baixe os quatro trimestres mais recentes e some os valores.
  3. Divida pelo patrimônio médio do período e multiplique por cem.
  4. Compare com o honorário que te ofereceram. Acabou a discussão.

O passo a passo completo, com os quatro documentos onde essa informação aparece, está em quanto o seu assessor ganha com você.

5. Três coisas que o fee-based não resolve

O conflito de interesse não desaparece, ele encolhe. A própria reportagem traz um fundador de assessoria admitindo que a recomendação ainda muda conforme a remuneração, e que “todos sabem que isso ainda acontece”. Enquanto houver qualquer receita ligada a produto em algum canto da estrutura, existe incentivo. O que o fee-based faz é tirar o incentivo do centro da mesa, não da sala.

Honorário caro com serviço ruim é o pior dos mundos. Um por cento ao ano sobre uma carteira de Tesouro Selic e dois CDBs é um péssimo negócio, e continua péssimo com qualquer nome. O modelo não é um selo de qualidade. Ele é uma forma de cobrar, e cobrar de forma transparente por um trabalho que não é feito continua sendo cobrar caro.

Dupla cobrança é possível e acontece. Se existe honorário e as comissões de distribuição continuam ficando na estrutura, você está pagando duas vezes pela mesma coisa. Essa é a pergunta mais importante de todas, e ela vem no bloco seguinte.

Fee-based sem devolução das comissões não é fee-based. É comissionado com uma taxa a mais.

6. Como saber se o fee-based que te ofereceram é de verdade

Quatro perguntas, todas com resposta objetiva, todas para pedir por escrito.

  1. As comissões recebidas pela distribuição de produtos voltam para mim? Se a resposta for vaga, é não.
  2. O honorário está escrito antes de qualquer recomendação, com percentual e base de cálculo? Honorário que aparece depois da proposta de investimento não é honorário, é fechamento de venda.
  3. Seguros, câmbio e consórcio entram no acordo ou ficam fora? A estrutura varia caso a caso e pode haver comissão paga pelo fornecedor. Isso precisa ser dito antes de contratar, em qualquer modelo.
  4. Eu continuo recebendo o extrato trimestral de remuneração? Ele é obrigatório de qualquer forma, e é o seu instrumento de auditoria.

Se as quatro respostas vierem por escrito e forem consistentes, você tem um modelo transparente na sua frente. Se alguma delas travar, você tem uma venda.

Descubra de que lado da linha você está

Me mande o extrato e eu devolvo a conta fechada: quanto a sua carteira gera hoje para a cadeia de distribuição, em reais e em percentual, e se o fee-based faria diferença no seu caso. Se a resposta for que não faria, eu digo isso.

Perguntas frequentes

O que é fee-based?

É o modelo em que o cliente contrata um honorário ligado ao patrimônio assessorado, definido antes de qualquer recomendação, e as comissões recebidas pela distribuição de produtos são devolvidas a ele. No Brasil, segundo o Brazil Journal, o honorário praticado fica entre 0,4% e 1% do patrimônio ao ano.

Fee-based é sempre mais barato que comissionado?

Não. Para uma carteira conservadora e pouco movimentada, com Tesouro Direto e renda fixa carregada até o vencimento, o comissionado costuma sair mais barato, porque esses produtos geram pouca ou nenhuma remuneração para a cadeia. O fee-based passa a compensar quando a carteira tem fundos, previdência, estruturados ou giro frequente.

Como saber quanto eu pago hoje no modelo comissionado?

Pelo extrato trimestral de remuneração, disponível na área logada da corretora por exigência da Resolução CVM 179. Some os quatro trimestres mais recentes e divida pelo patrimônio médio do período.

O fee-based elimina o conflito de interesse?

Reduz, não elimina. Enquanto existir qualquer receita ligada a produto na estrutura, existe incentivo. A diferença é que, no fee-based, o custo do cliente para de depender de qual produto foi recomendado.


Fontes


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Quem escreve

Sérgio Ferreirinha

Planejador financeiro pessoal certificado CFP®, assessor de investimentos com certificação Ancord, formado em administração pela PUC-SP.

Mais de 15 anos no mercado financeiro, com passagens por Interfloat, XP, Guide Investimentos e Banco Safra, em posições comerciais e de liderança ligadas a investimentos e expansão de negócios. Cofundador da Ocre Capital, assessoria de investimentos credenciada à XP que trabalha no modelo fee-based: a remuneração está ligada ao patrimônio assessorado e as comissões recebidas pela distribuição de produtos são devolvidas ao cliente.

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