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Título de capitalização: o piso da lei já é uma perda

A regra do título de capitalização promete devolver o total das contribuições, em dinheiro nominal. A conta de cinco anos mostra o que isso significa com inflação.

Sérgio Ferreirinha

Sérgio FerreirinhaCFP®

Cofundador da Ocre Capital e editor do Acorda Investidor

Mais de 15 anos no mercado financeiro, com passagens por XP, Guide Investimentos e Banco Safra.

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Bolas numeradas de sorteio

O título de capitalização é o produto financeiro mais vendido no balcão de banco brasileiro que quase nenhum profissional de finanças recomenda. Essa distância entre quem vende e quem indica costuma ser a pista de que vale abrir a conta.

Antecipo o resultado. A regra que rege o produto está na Resolução CNSP 384/2020, e ela é explícita sobre o que a empresa precisa te devolver no fim: no mínimo, o total do que você colocou. Em dinheiro nominal. Com a inflação de hoje, cinco anos de R$ 100 por mês voltam valendo R$ 4.829 em poder de compra, contra os R$ 6.000 que saíram do seu bolso.

Para onde vai cada real da sua parcela

O artigo 22 da Resolução CNSP 384/2020 divide a sua contribuição em três partes, com nome próprio:

  • Quota de capitalização. A parte que vira poupança de verdade e forma a provisão matemática. É o que volta para você.
  • Quota de sorteio. A parte que paga os prêmios. Sai do seu bolso e vai para o bolso de outro cliente, menos a operação.
  • Quota de carregamento. A parte que paga as despesas da empresa. Não volta, não sorteia, não rende. É o preço do produto.

O parágrafo 1º do mesmo artigo dá uma proteção: a quota de capitalização precisa ser maior que cada uma das outras duas, individualmente consideradas. Repare na palavra individualmente. A regra não diz que a capitalização precisa ser maior que a soma das outras duas. Uma divisão de 40% para capitalização, 30% para sorteio e 30% para carregamento cumpre a regra à risca, e nela 60% de cada parcela sua não está sendo poupada.

O parágrafo 2º diz que a SUSEP pode definir limites percentuais por modalidade. Pode. O número que vale para o seu título é o que estiver nas condições gerais dele, e é por isso que a primeira pergunta deste artigo é: qual é a sua quota de capitalização?

O que a lei garante, e o que ela não garante

Para a modalidade tradicional, o artigo 29 é a garantia central do produto: a sociedade deve restituir ao titular, ao final do prazo de vigência, no mínimo, o valor total das contribuições efetuadas.

Essa frase é vendida como segurança, e ela realmente é uma proteção. Mas leia o que ela promete no piso: o seu dinheiro de volta. Não o seu dinheiro corrigido. Não o seu dinheiro rendendo. O seu dinheiro.

Um produto cujo piso legal é devolver o nominal, num país com inflação, tem uma perda real embutida no próprio piso. E vale sublinhar: essa garantia de 100% vale para a modalidade tradicional. Outras modalidades, incluindo as que aparecem no caixa do supermercado e nas promoções de varejo, podem devolver menos do que entrou.

A conta de cinco anos

Gráfico comparando R$ 6.000 aportados, R$ 4.829 devolvidos pelo título de capitalização em poder de compra e R$ 6.476 do mesmo aporte em um CDB a 100% do CDI
Tudo trazido para o poder de compra de hoje. Premissas declaradas no rodapé do gráfico.

R$ 100 por mês durante cinco anos são R$ 6.000 que saem da sua conta.

 Você recebe no fimEm poder de compra de hoje
O que você colocou R$ 6.000
Capitalização, no piso da leiR$ 6.000 nominaisR$ 4.829
Mesmo aporte a 100% do CDIR$ 8.048 líquidosR$ 6.476

No piso legal, o título devolve 75% do que o CDB devolve, e 80% do poder de compra que você entregou. A diferença de R$ 1.648 em poder de compra é o preço de cinco anos de bilhetes de sorteio, e ela sai antes de qualquer prêmio.

Sendo justo com o produto: muitos títulos rendem alguma coisa acima do piso, com atualização por índice e juros previstos nas condições gerais. O ponto não é que todo título entrega exatamente o piso. É que o piso legal já é uma perda real, e um produto cujo pior caso contratual é perder poder de compra precisa de um argumento muito bom para justificar o melhor caso.

O sorteio é a parte que você está comprando

Toda a diferença entre um título de capitalização e um CDB está na quota de sorteio. É por ela que você aceita render menos.

E a matemática do sorteio não tem mistério: o dinheiro dos prêmios sai do bolso dos participantes. A empresa recolhe a quota de sorteio de todo mundo, tira a operação e devolve o resto em prêmios. Por construção, o conjunto dos participantes recebe menos em prêmios do que pagou em quotas de sorteio. Não porque alguém esteja trapaceando, mas porque é assim que uma loteria funciona.

Isso não torna o produto uma fraude. Torna ele uma loteria com devolução do bilhete no fim, e sem correção do bilhete. Se é isso que você quer, é uma escolha legítima e você tem o direito de fazê-la. O problema é quando ele é apresentado como investimento, ou como poupança, ou como condição para conseguir outra coisa.

Essa última parte tem nome. Condicionar a concessão de um produto à compra de outro é venda casada, e é vedada pelo Código de Defesa do Consumidor. Se o título apareceu na conversa sobre um empréstimo, uma conta ou um limite, o assunto deixou de ser rendimento.

Por que ele continua sendo vendido

A pergunta que este site sempre faz: se o produto é ruim para o cliente, por que ele continua no balcão?

Porque a quota de carregamento é receita da instituição no primeiro dia, e não depende do desempenho de nada. Um CDB paga ao banco um spread ao longo do tempo e exige que ele carregue o crédito. Um título de capitalização entrega margem contratada, previsível, com o cliente preso por anos e com multa para sair antes.

É o mesmo mecanismo que aparece em outros lugares deste site. No consórcio, a taxa de administração sem teto legal. Na previdência privada, o carregamento e a taxa de administração. Em todos, a receita de quem vende não depende do resultado de quem compra.

As três perguntas antes de assinar qualquer título:

  1. Qual é a quota de capitalização, em percentual? Está nas condições gerais. É a fração da sua parcela que volta.
  2. Qual a modalidade? Só a tradicional tem a garantia de devolver 100% do nominal no fim do prazo.
  3. Quanto eu perco se resgatar antes do prazo? O resgate antecipado tem carência e penalidade. Pergunte o valor exato no mês 12 e no mês 24, por escrito.

Tem um título de capitalização e quer saber quanto ele custa?

Me mande as condições gerais e eu devolvo a conta fechada: quanto da sua parcela é capitalização, quanto é sorteio, quanto é carregamento, e quanto volta se você sair antes. Sem venda de produto, porque não vendemos produto nenhum.

Perguntas frequentes

Título de capitalização é investimento?

Pela regra da modalidade tradicional, o piso é devolver ao final o total das contribuições, sem correção obrigatória. Um produto cujo piso contratual é perder poder de compra é melhor descrito como uma loteria com devolução do bilhete do que como investimento.

Título de capitalização devolve todo o dinheiro?

Na modalidade tradicional, sim, ao final do prazo de vigência: o artigo 29 da Resolução CNSP 384/2020 exige a restituição de no mínimo o total das contribuições. Em outras modalidades e no resgate antecipado, pode voltar menos.

O que são quota de capitalização, de sorteio e de carregamento?

São as três partes em que a sua contribuição é dividida, pelo artigo 22 da Resolução CNSP 384/2020. A de capitalização vira poupança e volta para você, a de sorteio paga os prêmios e a de carregamento paga as despesas da empresa. Por regra, a de capitalização precisa ser maior que cada uma das outras duas.

O banco pode exigir um título de capitalização para liberar um empréstimo?

Condicionar a concessão de um produto à aquisição de outro é venda casada, prática vedada pelo Código de Defesa do Consumidor. Se isso acontecer, o registro da conversa e a reclamação formal são o caminho.


Fontes


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Conteúdo informativo e educacional. Não é recomendação de investimento nem oferta de produto. Simulações são ilustrações com premissas declaradas no texto. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura.

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Sérgio Ferreirinha

Cofundador da Ocre Capital e editor do Acorda Investidor

CFP® · Assessor de investimentos certificado Ancord · Administração pela PUC-SP

Trabalha no mercado financeiro há mais de 15 anos. Passou por Interfloat, XP, Guide Investimentos e Banco Safra, em cargos comerciais e de liderança ligados a investimentos e expansão de negócios. Hoje é cofundador da Ocre Capital, assessoria de investimentos credenciada à XP que trabalha no modelo fee-based: a remuneração vem do patrimônio assessorado, e as comissões pagas pelos produtos são devolvidas ao cliente.

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