Dinheiro traz felicidade? O que a ciência descobriu em 2023

Por anos se repetiu que dinheiro só traz felicidade até US$ 75 mil por ano. Em 2023, a ciência revisou essa conta. O que muda na sua meta financeira.

Sérgio Ferreirinha

Sérgio FerreirinhaCFP®

Cofundador da Ocre Capital e editor do Acorda Investidor

Mais de 15 anos no mercado financeiro, com passagens por XP, Guide Investimentos e Banco Safra.

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Silhueta de uma família caminhando na praia ao pôr do sol

Por mais de uma década, uma frase circulou em palestras, livros e redes sociais: dinheiro só traz felicidade até cerca de US$ 75 mil por ano. Acima disso, mais renda não faria diferença no bem-estar do dia a dia.

A frase vinha de um estudo sério, de dois ganhadores do Nobel. O problema é que a ciência continuou andando. Em 2023, um dos autores refez a análise junto com o pesquisador que discordava dele, e a conclusão mudou: para a maioria das pessoas, o bem-estar continua subindo com a renda.

Fatia das pessoas em que o bem-estar para de subir com a renda

20%

São os mais infelizes da amostra. Neles, o bem-estar estaciona perto de US$ 100 mil por ano. Para os outros 80%, continua subindo. Killingsworth, Kahneman e Mellers, PNAS, 2023.

1. O estudo de 2010 e o limite de US$ 75 mil

Em 2010, Daniel Kahneman e Angus Deaton analisaram centenas de milhares de respostas de americanos e separaram duas coisas: a avaliação que a pessoa faz da própria vida e o humor do dia a dia. A avaliação da vida subia sempre com a renda. Já o bem-estar emocional, segundo eles, parava de melhorar por volta de US$ 75 mil por ano.

Foi essa segunda parte que virou regra. E virou justificativa para duas ideias opostas: a de que não vale a pena buscar mais dinheiro, e a de que basta chegar a um certo patamar para estar resolvido.

2. A revisão de 2023

Em 2021, o pesquisador Matthew Killingsworth publicou um estudo com dados coletados em tempo real, por celular, e encontrou o contrário: o bem-estar continuava subindo com a renda, sem platô. Em vez de trocar críticas, os dois fizeram algo raro na ciência. Kahneman e Killingsworth se juntaram, com a psicóloga Barbara Mellers como mediadora, e reanalisaram os dados em conjunto.

O resultado, publicado em 2023 na PNAS, reconciliou as duas conclusões. Para a maioria das pessoas, o bem-estar continua subindo acima de US$ 100 mil por ano. O platô existe, mas só aparece entre os 20% mais infelizes. Nesse grupo, o sofrimento vem de coisas que dinheiro não resolve: luto, doença, relações difíceis, depressão.

Em outras palavras: mais dinheiro não conserta uma vida infeliz, mas costuma melhorar uma vida que já vai razoavelmente bem.

3. O que o dinheiro compra: controle

A explicação mais consistente para essa relação não está nas coisas que o dinheiro compra. Está no controle. Renda e patrimônio dão a possibilidade de dizer não a um chefe, a um cliente, a um compromisso. De escolher onde morar, quando parar, com quem trabalhar.

É por isso que duas pessoas com a mesma renda podem ter níveis de liberdade muito diferentes. Quem ganha muito e gasta tudo continua dependendo do próximo salário. É a situação que descrevemos em ganho bem e não sobra nada. A renda alta sem patrimônio não compra controle, só um padrão de vida mais caro.

4. Comprar tempo funciona

Um estudo liderado por Ashley Whillans e publicado na PNAS em 2017 testou uma pergunta prática: o que traz mais satisfação, gastar com coisas ou gastar para se livrar de tarefas? Os participantes que pagaram para terceirizar atividades de que não gostavam, como limpeza ou deslocamentos, relataram mais satisfação do que quando gastaram o mesmo valor com bens materiais.

O efeito apareceu em diferentes faixas de renda. A lição é simples: antes de gastar com mais uma coisa, vale perguntar se aquele dinheiro não compraria mais tempo livre.

Comprar tempo não é gastar sem critério. É escolher, entre gastos possíveis, os que devolvem horas da sua semana. Um carro novo raramente faz isso. Morar mais perto do trabalho, às vezes, faz.

5. A meta certa: ficar livre

Se o que o dinheiro compra de mais valioso é controle, a meta financeira muda. O objetivo deixa de ser um número de renda e passa a ser um número de patrimônio: o valor que paga o seu custo de vida sem depender do seu trabalho.

Esse número é bem concreto. Quem gasta R$ 15 mil por mês e retira 4% ao ano precisa de cerca de R$ 4,5 milhões. Com uma retirada mais conservadora, o número sobe. A conta completa, com cenários, está em quanto você precisa para se aposentar no Brasil. E o tempo para chegar lá depende mais do aporte do que da rentabilidade, como mostramos em quanto tempo leva para juntar R$ 1 milhão.

Ficar rico é uma meta sem fim, porque sempre existe alguém com mais. Ficar livre tem um número. E dá para calcular.

ACORDA: três perguntas sobre o seu dinheiro e o seu tempo

  1. Por quantos meses você viveria sem trabalhar, com o que tem hoje? Esse é o tamanho do seu controle.
  2. Qual foi o último gasto que te devolveu tempo? E o último que só te deu mais uma coisa?
  3. Você sabe o número de patrimônio que paga o seu custo de vida? Se não sabe, a meta ainda é vaga.

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Sérgio Ferreirinha

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Sérgio Ferreirinha

Cofundador da Ocre Capital e editor do Acorda Investidor

CFP® · Assessor de investimentos certificado Ancord · Administração pela PUC-SP

Trabalha no mercado financeiro há mais de 15 anos. Passou por Interfloat, XP, Guide Investimentos e Banco Safra, em cargos comerciais e de liderança ligados a investimentos e expansão de negócios. Hoje é cofundador da Ocre Capital, assessoria de investimentos credenciada à XP que trabalha no modelo fee-based: a remuneração vem do patrimônio assessorado, e as comissões pagas pelos produtos são devolvidas ao cliente.

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