O Brasil foi às urnas neste domingo, 4 de outubro, para escolher presidente, governadores, senadores e deputados. A disputa presidencial vai a segundo turno: com mais de 98% das seções apuradas, nenhum candidato passou de 50% dos votos válidos, e os dois primeiros ficaram separados por menos de três pontos percentuais. A nova votação é em 25 de outubro, e a posse do presidente eleito, em 5 de janeiro de 2027 (TSE).
Até lá, a bolsa e o dólar vão balançar mais que o normal. Isso é certo. O que não é certo, e a história das últimas eleições mostra bem, é a direção.
Resposta direta. Nas últimas cinco eleições, o Ibovespa terminou o período entre os turnos em alta em quatro, mas com pregões de 3% a 4% para cima e para baixo no caminho. O resultado do investidor depende do que o novo governo e o novo Congresso fizerem em 2027, muito mais que da apuração de uma noite. Mexer na carteira por causa da eleição costuma custar imposto, spread e, com frequência, a venda no pior dia.
Este artigo mostra o que aconteceu com bolsa, dólar e juros nas eleições passadas, o que de fato pode mudar no seu bolso e uma lista curta do que conferir na sua carteira antes de 25 de outubro.
Bolsa: o que cinco eleições mostram entre os turnos
A bolsa costuma terminar o período entre os turnos no positivo, mas o caminho é acidentado. Um estudo de André Moraes sobre as eleições de 2006 a 2022, publicado pelo InfoMoney, mostra o Ibovespa em alta nesse intervalo em quatro dos cinco ciclos.
O mesmo estudo mostra o preço dessa alta. Em 2014, foram seis pregões com variação acima de 3% em cerca de 14 dias úteis. Em 2022, mesmo com o saldo positivo entre os turnos, houve um dia de queda de 4,4%.
O pregão seguinte ao primeiro turno é, quase sempre, o mais agitado. Em 3 de outubro de 2022, o Ibovespa subiu 5,54% e fechou em 116.134 pontos, a maior alta diária desde abril de 2020 (Agência Brasil via Canal Rural). Quem vendeu na sexta anterior, com medo da apuração, perdeu esse dia inteiro.
E em 2026? O primeiro pregão depois do 1º turno
A reação desta segunda-feira, 5 de outubro, foi ainda mais forte que a de 2022. Durante o pregão, o Ibovespa chegou a subir 8,70%, aos 208.831 pontos, depois de tocar o recorde histórico de 209,6 mil pontos. Na sexta, tinha fechado em 192.114 pontos. O dólar caiu 4,28%, para R$ 4,99, abaixo de R$ 5 pela primeira vez desde maio. Na sexta, tinha fechado a R$ 5,22. Os juros futuros recuaram mais de 1,35 ponto percentual em alguns contratos longos (InfoMoney; fechamento de sexta: SpaceMoney).
Quem vendeu na sexta, com medo da apuração, ficou de fora outra vez. Mas o movimento de um dia não diz onde o mercado vai estar em 25 de outubro, nem em 2027. Em 2014 e em 2022, saltos do câmbio logo depois do primeiro turno se desfizeram antes do segundo, como mostra a seção sobre o dólar.
Números parciais, apurados durante o pregão de 05/10/2026. Serão atualizados com o fechamento.
O ano da eleição não decide o resultado
| Ano eleitoral | Ibovespa no ano | Fonte |
|---|---|---|
| 2002 | -17,0% | FGV IBRE |
| 2014 | -2,9% | Melhor Investimento |
| 2018 | +15,0% | Melhor Investimento |
| 2022 | +4,7% | Melhor Investimento |
Dois anos de queda, dois de alta. E o ano seguinte pesa tanto quanto: depois da reeleição de 2014, o Ibovespa caiu mais 13,3% em 2015, já em plena recessão. A queda veio da política econômica dos meses seguintes, bem depois da apuração.
Dólar: mais oscilação, nenhuma direção garantida
O câmbio é onde a eleição aparece primeiro. Um levantamento da Nomad com dados da FactSet sobre as eleições de 2002 a 2022 mostra o dólar mais volátil entre o primeiro e o segundo turno, sem padrão fixo de alta ou queda no ano eleitoral (Nomad).
Os movimentos de curto prazo também costumam se desfazer. Uma análise do Goldman Sachs citada pelo Seu Dinheiro lembra que, em 2014 e 2022, o dólar deu saltos logo depois do primeiro turno e voltou antes do segundo. Em 2022, ele caiu 4,09% no dia seguinte à votação, a maior queda diária desde 2018 (Canal Rural).
O caso extremo é 2002. O dólar terminou 2001 a R$ 2,31 e chegou perto de R$ 4,00 em outubro, entre os turnos, com desvalorização do real acima de 50% no ano (FGV IBRE). Quem precisou comprar dólar naquele mês pagou o pico.
A leitura do Goldman resume bem o ponto: o preço do dólar depois da eleição depende das decisões de política econômica, mais que do nome do vencedor. Isso só começa a ficar claro com a equipe econômica anunciada e o orçamento de 2027 na mesa.
Juros e renda fixa: onde o susto é só no extrato
A Selic está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro, segundo o Banco Central. Ela só muda em reunião do Copom, então a eleição não mexe nela de um dia para o outro. Quem mexe é o mercado de juros futuros, que reprecifica os títulos todos os dias.
Na prática, a renda fixa se divide em dois grupos nesta época:
- Pós-fixados (Tesouro Selic, CDB e LCI atrelados ao CDI). O preço quase não oscila. A eleição passa sem aparecer no extrato.
- Prefixados e IPCA+ (Tesouro Prefixado, Tesouro IPCA+, debêntures, CDB prefixado). O preço de mercado sobe e cai com a curva de juros. Num dia ruim, o extrato pode mostrar perda.
A perda do segundo grupo só se concretiza se você vender. Quem leva o título até o vencimento recebe a taxa contratada na compra, com ou sem susto no meio do caminho. Vender um prefixado no dia mais tenso de outubro é a forma mais comum de transformar oscilação em prejuízo.
Em ano eleitoral também cresce a oferta de títulos com taxa “imperdível”. Antes de comprar, vale ler o artigo sobre spread na renda fixa: a taxa que aparece para você já vem descontada da margem de quem distribui.
O que de fato pode mudar no seu bolso
O que afeta o seu dinheiro vem em 2027, quando o novo governo assume em 5 de janeiro e o novo Congresso começa a votar. A votação deste domingo também escolheu deputados e senadores, e é o Congresso que aprova ou trava mudança de imposto.
Três pontos para acompanhar, sem precisar de palpite sobre quem ganha:
- Tributação da renda fixa isenta. LCI e LCA seguem isentas em 2026. A MP 1.303, que mexia nessa regra, caducou, e o debate deve voltar depois da eleição (InfoMoney, julho de 2026). Se houver mudança, o texto da lei dirá se ela vale para títulos já comprados ou só para os novos. Até lá, não existe regra nova para antecipar.
- Imposto de renda da pessoa física. A isenção até R$ 5.000 por mês e a redução parcial até R$ 7.350 já são lei desde a Lei 15.270/2025 e valem em 2026.
- Contas públicas e orçamento de 2027. É daqui que saem juros, inflação e dólar dos próximos anos. O sinal concreto aparece com o nome do ministro da Fazenda e a proposta de orçamento, e não nas pesquisas.
Para a sua carteira, a pergunta útil é: se a regra de um desses três pontos mudar, quanto do meu patrimônio é afetado? Essa conta você consegue fazer hoje, com o que já tem em mãos.
O que não fazer nas próximas três semanas
- Montar a carteira pela pesquisa da semana. Em 2022, o primeiro turno saiu diferente do que as pesquisas indicavam e a bolsa subiu 5,54% num dia. Quem se posicionou pelo levantamento anterior errou o lado.
- Resgatar renda fixa recém-aplicada. Até 30 dias, o resgate paga IOF regressivo, e até 180 dias o imposto de renda é de 22,5% sobre o rendimento (Lei 11.033/2004). Fugir da eleição pode custar mais que a eleição.
- Vender prefixado ou IPCA+ no dia ruim. A marcação a mercado volta se você esperar o vencimento. A venda trava a perda.
- Comprar todo o dólar de uma vez. Se você tem uma despesa futura em moeda estrangeira, como viagem ou estudo fora, dividir a compra em parcelas reduz o risco de pagar o pico, como aconteceu com quem comprou em outubro de 2002.
- Seguir dica de grupo de mensagem. Ano eleitoral multiplica “a ação que vai disparar se fulano ganhar”. Ninguém sabe o resultado do segundo turno, nem quem promete o atalho.
Cinco conferências para fazer antes de 25 de outubro
Nenhuma delas depende de saber quem vence. Todas usam números que você já tem no extrato.
- Reserva de emergência. Está em aplicação de liquidez diária e cobre o que você definiu, em geral alguns meses de despesa? Se sim, a volatilidade de outubro não te obriga a vender nada.
- Vencimentos. Algum título vence ou algum dinheiro tem uso marcado até o início de 2027? Esse valor não deveria estar em ativo que oscila.
- Proporções. Quanto da carteira está em bolsa, em dólar e em prefixado? Compare com o que você decidiu antes da campanha. Se a diferença veio de oscilação, ajuste pela regra que você já tinha.
- Custos. Uma troca feita agora paga imposto, IOF, spread ou taxa de saída? Some antes de mexer. O Raio-X de Custos faz essa conta no seu navegador.
- Aportes. Se você aporta todo mês, mantenha o calendário. Aportar em parcelas é a forma mais simples de atravessar um período de preço instável.
Se depois dessas cinco a carteira estiver do jeito que você decidiu, a melhor decisão para outubro pode ser não fazer nada.
Perguntas frequentes
A bolsa sempre sobe depois da eleição?
Não. Entre o primeiro e o segundo turno, o Ibovespa subiu em quatro das últimas cinco eleições, mas no ano eleitoral o resultado variou de -17% em 2002 a +15% em 2018. O que vem depois depende da política econômica do novo governo.
Devo comprar dólar antes do segundo turno?
O histórico mostra o dólar mais volátil entre os turnos, sem direção fixa. Quem tem despesa futura em moeda estrangeira costuma reduzir o risco comprando em parcelas, em vez de tentar acertar o dia.
Meu Tesouro IPCA+ caiu. Perdi dinheiro?
Só se vender agora. A queda é a marcação a mercado. Levando o título até o vencimento, você recebe a taxa contratada na compra.
LCI e LCA vão perder a isenção?
Em 2026 continuam isentas. O tema deve voltar ao Congresso depois da eleição, e qualquer mudança precisa de lei, com regra clara sobre títulos já comprados.
Fontes
- TSE: calendário das Eleições 2026
- InfoMoney: Ibovespa entre os turnos em cinco ciclos, set/2026
- Canal Rural / Agência Brasil: bolsa e dólar no dia seguinte ao 1º turno de 2022
- FGV IBRE: mercado financeiro e eleições
- Melhor Investimento: Ibovespa em anos eleitorais, set/2026
- Nomad: dólar em ano de eleição, set/2026
- Seu Dinheiro: análise do Goldman Sachs sobre o dólar pós-eleição, set/2026
- Banco Central: histórico da Selic
- LegisWeb: sanção da Lei 15.270/2025
- InfoMoney: Ibovespa hoje, 05/10/2026
- SpaceMoney: fechamento de 02/10/2026
- InfoMoney, jul/2026: LCI e LCA isentas em 2026 e caducidade da MP 1.303
- Lei 11.033/2004 (tabela regressiva da renda fixa)
Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura. Dados apurados em 04 e 05/10/2026.



