A grande transferência de riqueza: o Brasil e a herança

O Brasil deve transferir quase US$ 9 trilhões entre gerações, o segundo maior volume do mundo. O custo de não planejar e o que fazer dos dois lados.

Sérgio Ferreirinha

Sérgio FerreirinhaCFP®

Cofundador da Ocre Capital e editor do Acorda Investidor

Mais de 15 anos no mercado financeiro, com passagens por XP, Guide Investimentos e Banco Safra.

CompartilheWhatsAppLinkedInXSigaInstagramNewsletter
Mão de uma criança segurando o dedo de uma pessoa idosa

Nos próximos 20 a 25 anos, o mundo vai assistir à maior transferência de riqueza da história. Segundo o Global Wealth Report 2025 do UBS, mais de US$ 83 trilhões devem mudar de mãos, por herança entre gerações e entre cônjuges.

O dado que mais chama a atenção para nós: o Brasil aparece em segundo lugar no volume esperado, com quase US$ 9 trilhões, atrás apenas dos Estados Unidos e à frente da China. E a maioria das famílias brasileiras não está preparada para isso, nem do lado de quem deixa, nem do lado de quem recebe.

Riqueza que deve ser transferida no Brasil nos próximos 20 a 25 anos

quase US$ 9 trilhões

O segundo maior volume do mundo. No total global, são US$ 83 trilhões: US$ 74 trilhões entre gerações e US$ 9 trilhões entre cônjuges. UBS, Global Wealth Report 2025.

1. O tamanho da transferência

O número global inclui US$ 74 trilhões passando de pais para filhos e netos e US$ 9 trilhões entre cônjuges, já que as mulheres costumam viver mais e herdar primeiro. No Brasil, o volume reflete a concentração: o relatório de 2026 do mesmo banco estima 386 mil brasileiros com mais de US$ 1 milhão.

O ponto não é o tamanho em si. É que essa transferência vai acontecer de qualquer jeito, planejada ou não. A diferença está em quanto chega e em que condições.

2. Por que herança sem preparo encolhe

  • Inventário caro e demorado. Imposto, honorários e cartório saem do patrimônio, e os bens ficam travados até o fim do processo.
  • Falta de liquidez. O ITCMD precisa ser pago antes da partilha. Sem dinheiro disponível, a família vende bens às pressas, muitas vezes abaixo do valor.
  • Herdeiros que não conhecem o patrimônio. Contas esquecidas, investimentos que ninguém sabe onde estão, empresas sem sucessor preparado.
  • Decisões tomadas no luto. É o momento em que mais aparecem ofertas de produto e conselhos apressados.

3. O custo de não planejar

Para um patrimônio de R$ 3 milhões em São Paulo, em inventário feito em cartório e sem briga entre herdeiros, a conta fica em torno de R$ 330 mil:

Item Referência Valor
ITCMD 4% em São Paulo hoje R$ 120 mil
Honorários referência de 6% da OAB-SP R$ 180 mil
Cartório, certidões e avaliações cerca de 1% R$ 30 mil
Total R$ 330 mil
Ilustrativo. A Lei Complementar 227/2026 tornou o ITCMD progressivo, com teto de 8%. Com 8%, o total passaria a R$ 450 mil.

Se o inventário for para a Justiça, o custo e o prazo sobem. O detalhamento completo está em quanto custa um inventário em 2026.

4. Para quem vai deixar

  1. Organize e documente o patrimônio. Uma lista atualizada de bens, contas, investimentos, seguros e dívidas, com a indicação de onde estão os documentos.
  2. Garanta liquidez para o inventário. Dinheiro disponível para imposto e custas, sem obrigar a família a vender bens.
  3. Use os instrumentos certos. Previdência, seguro de vida, doação em vida e testamento, cada um com o seu papel. Pela decisão do STF no Tema 1.214, não incide ITCMD sobre VGBL e PGBL, e o valor vai ao beneficiário fora do inventário. A escolha entre os dois está em PGBL ou VGBL: qual escolher.
  4. Converse com a família. Herdeiro que conhece o plano, os assessores e os documentos decide melhor e briga menos.

Holding patrimonial não é solução automática. Ela tem custo de abertura e de manutenção, e a LC 227/2026 passou a exigir valor de mercado para cotas de empresas no cálculo do ITCMD. Faça a conta com advogado e contador antes de decidir.

5. Para quem vai receber

  1. Não decida nada grande nos primeiros meses. Deixe o dinheiro em uma aplicação líquida e segura enquanto organiza a vida.
  2. Entenda o que recebeu. Imóveis têm IPTU e manutenção, empresas exigem gestão, aplicações têm custos e prazos diferentes.
  3. Quite as dívidas caras primeiro. É o retorno mais alto e mais seguro disponível.
  4. Faça um plano antes de mudar o padrão de vida. A mesma herança pode virar independência financeira ou só alguns anos de padrão mais alto.

Discrição também ajuda. Quem acabou de receber um patrimônio é alvo preferido de golpes e de vendedores. Os cuidados estão em riqueza silenciosa.

ACORDA: três perguntas para a sua família

  1. Se algo acontecesse amanhã, alguém saberia onde está cada investimento?
  2. Existe dinheiro disponível para pagar o inventário sem vender nada?
  3. Os beneficiários da previdência e dos seguros estão atualizados?

O seu patrimônio está organizado para a sucessão?

Me mande a sua carteira e eu devolvo a conta: como ela está distribuída, quanto custa por ano e o que entra ou fica fora do inventário. Você recebe a conta, não uma oferta de produto.


Fontes

  • Transferência de riqueza: UBS, Global Wealth Report 2025.
  • Brasileiros com mais de US$ 1 milhão: UBS, Global Wealth Report 2026.
  • ITCMD progressivo e teto de 8%: Lei Complementar 227/2026. ITCMD sobre previdência aberta: STF, Tema 1.214.
  • Honorários: tabela da OAB-SP como referência; valores negociáveis.
  • Inspiração: Financial Samurai, “A Massive Generational Wealth Transfer Is Why Everything Will Be OK”.
  • Conteúdo informativo. Não substitui orientação jurídica ou tributária.

Leia também

Conteúdo informativo e educacional. Não é recomendação de investimento nem oferta de produto. Simulações são ilustrações com premissas declaradas no texto. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura.

O custo não aparece como cobrança. Ele aparece como um resultado menor. Some as camadas da sua carteira em um número só.

DESCUBRA QUANTO VOCÊ PAGA

Sérgio Ferreirinha

Quem assina

Sérgio Ferreirinha

Cofundador da Ocre Capital e editor do Acorda Investidor

CFP® · Assessor de investimentos certificado Ancord · Administração pela PUC-SP

Trabalha no mercado financeiro há mais de 15 anos. Passou por Interfloat, XP, Guide Investimentos e Banco Safra, em cargos comerciais e de liderança ligados a investimentos e expansão de negócios. Hoje é cofundador da Ocre Capital, assessoria de investimentos credenciada à XP que trabalha no modelo fee-based: a remuneração vem do patrimônio assessorado, e as comissões pagas pelos produtos são devolvidas ao cliente.

Acorda News

Antes do mercado abrir, abra os olhos.

Um email a cada artigo novo, antes da abertura do pregão.

Assinar o Acorda Investidor

Mais do Acorda

Diagnóstico gratuitoda sua carteira